Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió (bis)
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.
Luís Gonzaga/Humberto Teixeira , 1950
…respostas, críticas, crónicas, verdades infundadas, teorias, encontros, paródias, conspirações, chalaças, ramboiadas, lágrimas, venenos, gentes, vícios, valores, palavras, perguntas, solidões, comunhões, fobias, frenias, neopatologias, actualidades, mundialidades, portugalidades. Ou só insignificâncias…
quarta-feira, setembro 29, 2010
terça-feira, setembro 28, 2010
Cagada em Três Actos I
Quando éramos putos, antes de termos ganho um hipotético gosto adulto-requintado, éramos bem-dispostos e havia filmes que até não nos importávamos de pagar multa no videoclube só para assistir mais uma vez. Não precisávamos de grandes conceitos. Basicamente queríamos porrada, mistérios e amor em doses “puto-herói-David-mata-Golias-e-beija-na-boca-(sem-língua)-a-mais-bonita-do-liceu”.
Quando eu via estes filmes o meu pai ria-se, dizendo-me: «Cagada em três actos, sabes o que é isto? Uma cagada em três actos!» Eu sempre me diverti com a expressão. Na verdade, quem teve a sorte de nascer nos anos 80 assistiu a um número infindável de cagadas em três actos.
Gostaria de rever convosco uma das maiores que se tornaram parte da minha infância… O filme chama-se “Fúria Sangrenta” que como todos sabemos traduzido para inglês é “BloodSport” de 1988. Protagonista: João Cláudio da Dama, um dos melhores artistas bruxelenses nascidos no seio das competições de bodybuilding. Este é o filme que o fez rebentar nos Estados Unidos e pelo lirismo da cena final épica podemos todos perceber porque é que o mundo ocidental e oriental se rendeu à sua arte e engenho. Infelizmente, o nosso herói que fez ballet durante 5 anos e foi Mister Bélgica, não ganhou o Óscar nesse ano.
A trama não é complicada mas original... Um ringue ilegal numa competição secreta chamada Kumite, lutas até à morte por eliminação, treinos duros durante todo o filme até ao combate final. O que poucos sabem é que este é um filme baseado em factos verídicos, é a biopsia de Frank Dux. A verosimilhança, aliás é um dos principais ingredientes ao longo desta fita.
Nesta última cena, final dramático, não se vêm a quantidade de tijolos partidos com ajuda de apenas lenços molhados e duras articulações dos membros. Também não surge a ameaça do arquirival de João Cláudio, (o Chinês que abana os peitorais): “Cuidadinho, os tijolos não te batem de volta”! Nem tão pouco uma das cenas mais sangrentas da minha juventude a seguir à lesão em directo sofrida pelo Rui Águas do Benfica contra o Dínamo de Kiev. Essa cena em que o grande amigo de João Cláudio fractura explicitamente a perna em resultado do golpe baixo do chinês que mexe as mamocas, cafageste imensurável que é este mega arqui-rival, um actor asiático chamado… Bolo. Sim, Bolo. Bolo Yeung.
A genialidade deste filme também assenta na diversidade. Para chegarem à finalíssima os nossos homens tiveram de derrotar/matar, entre outros um lutador de sumo, um lutador das polinésias e um mexicano. O nosso amigo João Cláudio fá-lo, aliás, com uma perna às costas, ou duas a fazer espargata em bancos chineses. Aliás chega a bater o recorde de vitórias de Bolo Yeung, facto esse que este chinês, de mamilos com vontade própria recalca em si, até ao derradeiro combate…
Bom estou a dispersar-me nos requintes desta produção. O que interessa mesmo é a cena final. Analisemos apenas recorrendo à imagem e a conceitos soltos. Por ordem cronológica:
-cabelo polido de João Cláudio, em ringue, o aprumo é importantíssimo.
- mamocas malévolas dançantes.
- FRASE QUE MARCA O FILME: a tal que estava recalcada depois do record batido: «you break my record, now i break you like i did to your friend». (Quando queríamos ser maus nos anos 90 repetíamos isto e toda a gente nos tinha respeito. Especialmente quando imitávamos até a perfeição quer o tom, quer o apontar para o joelho com o lenço harley davidson roubado, quer especialmente a espécie de dobragem que o próprio actor ou o sonoplasta do filme fizeram. Algo que conseguiu maravilhar-me durante anos esta mescla de ventriloquismo exótico e artes marciais)
- vilão que exala ranho como o Cristiano Ronaldo
- pontapé que nitidamente não bate na cara de ninguém e som que é de tudo menos de um pontapé.
- árbitro agarrado e empurrado pelo vilão mas usado como catadupa pelo herói. (Remake/Plágio do Mockumentary “José Pratas VS FCPorto”)
-linguagem gestual de como quem diz, as minhas mamocas não estão a mexer, estou fulo contigo João Cláudio, chiça.
- pontapés de João Cláudio no ar mas com som
- minuto 1.37- "eh pá precisamos aqui de um preto qualquer para actor secundário, escolham aquele que provavelmente nunca ganhará nada na vida o...o Forest Whitaker…
- chinês de óculos à paco bandeira muito ansiosozinho
- publico que grita desconjuntadamente "KUMITE"
- Câmara lenta de João Cláudio. Raiva de João Cláudio.
- chinês parece que acabou de sair do mar e tem água no ouvido direito. Incorpora o demónio e ataca.
- João Cláudio também incorpora o Diabo
- serie de 23 socos e pontapés em que nenhum acerta. Nenhum.
- auge da cena: Bolo tira cocaína da zona testicular dos calções e lança -a nos olhos de João Cláudio. A forma como o nosso bruxelense reage ao cegar é motivo "per se "para um Óscar. Vi isto mais de 10 vezes quando tinha tempo livre, ou seja na época de exames da faculdade.
- 3.45: único murro no ar verosímil.
- saltos panisguinhas de vitória de Bolo Yeung
- o drama, a tragédia, a cegueira e belzebu em João Cláudio
- flashbacks dos treinos (plágio de tsubasa)
- João Cláudio apalpa árbitro reconhecendo-o….suspeito...
- Cego, joão cláudio, acerta mais pontapés que vendo.
- JOÃO CLÁUDIO CEGO VENCE DEPOIS DE TRIPLA PATADA.
- OS BONS E CEGUINHOS VENCEM OS MAUS QUE MEXEM AS MAMAS.uma, digam-me uma alegoria da vida, do mundo, das relações, melhor que esta? G.F.
É preciso voltares a por o pé no pedal. Subires a rampa. Continuares a pasmar-te. Só se os teus outros mundos te forem ainda admiráveis, poderás ter, aqui e além, alguma vida. É necessário desenganchares o travão. Desceres a rampa e acreditares que depois do salto e da queda há meia dúzia de colchões, esponjas, sorrisos, almofadas a dar-te amparo. É imprescindível que te embasbaques. Comigo, contigo, com o que ainda restar da imaturidade entre todos. G.F.
Guerra
Hoje ocupei as minhas mãos contigo. Foi para te sentir a pretensa perigosidade. Sentir que, de certa forma, ainda consigo ser o teu inimigo e que tu continuas a gostar da nossa guerra. Não, não pecas por gostar de batalhas, nem pecas por ansiar ser vencida mais uma vez. Nunca pecas e isso desmascara-me a santidade. Faz-me nunca ter uma bandeira branca sobresselente. Sem tréguas, nas tuas trevas precisas que te faça nascer um incêndio. Precisas que alguém te adivinhe os rastilhos. Tens vários. Para cada uma de ti soldada nunca haverá um só alquimista, embora cada um de nós ache que encontrou a fórmula secreta da tua paz. Hoje ocupas-te a riscar falsos tratados. A rasgar montes de letras onde irámos o que desdenhávamos um do outro. A guerra é guerra. Nenhum de nós tem fé em convenções. Matámo-nos, morremos em glória derramada nos nossos corpos. Pequenos heróis, grandes covardes. A guerra é a guerra e hoje que te ocupo, não te vais poder exilar. G.F.
ChildPubMantra II
Se depois de 3 dias de festivais ainda fores dançar muximas a um domingo e ainda depois te vires em discotecas manhosas, lembra-te do que as batatas fritas te diziam:
«Até que idade pensas divertir-te?»G.F.
ChildPubMantra I
«Se ao fim do dia te sentes cansado, procura um amigo, que a casa te acompanhará» G.F.
Regresso
Voltei a este blogue. Não sei bem porquê ou pior, temo saber demasiado bem. Como podem ver os comentários foram todos apagados. Não que eu quisesse. Culpem os fazedores de sites e destas geringonças. Tenho esses antigos comentários todos guardados: se algum de vós, parte destes 7 anos de blogue, os quiser rever, basta dizer. Comentem ou voltem a comentar ou abstenham-se. Eu gosto mais de ler mails. Ler, porque responder, raramente. Perdoem-me por favor por isso. O meu mail continua a ser o mesmo, o mail das escritas digo: basbaque@portugalmail.pt. Manifestem-se, digam que passaram por aqui. Gosto de saber que há alguém ai, a tentar também ler mais um regresso meu, ou a ler palavras de quando ainda tinha menos 7 anos. Gosto especialmente que aqui parem os meus amigos e amigas, e aqueles estranhos anónimos que ainda só não são amigos apenas devido ao desconhecimento mútuo. Gosto sobretudo que isto não seja o Facebook. Boa noite. G.F.
quarta-feira, novembro 18, 2009
Há Dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade
de Os lugares de Lume
cometas
'Bora aí contar cometas miúda? È tarde? A cidade ilumina demasiado o espaço? Ia jurar que ontem vi um cometa daqueles bem grandes, aqueles cometas Alentejanos sabes? Ia jurar que os cometas também se despenham na cidade, tipo fogo sem artifício com os vectores desnorteados, ali sem alvos, só para caírem e nós a aproveitar as suas caudas antes de inexistirem. Bora lá miúda, pára de pensar nisso, pára de ler blogues narcísicos e vamos fazer filmes de cometas para pôr no youtube. Apaga a tua conta de facebook, despede-te da tua quinta e dos teus quizzes e dos feeds de quem já não ve os teus feeds. Despede-te disto e vem contar dois ou três cometas. Não estás propriamente sozinha. Nós também pensávamos estar, mas há sempre um étê que aterra de vez em quando e nos faz descobrir que somos bués e quês. Bora lá miúda, não comas mais gelados, larga a sic mulher, daqui a 1 ano ninguém vai saber quem são essas escanzeladas e nós vamos saber quantos cometas contámos esta noite. Bora lá, vamos de carro ou foguetão, depende do preço da gasosa. Vamos ao gordalhufo daquela churrascaria suada, molho tipo maçã “ranheta” à fartazana, ceia dos Deuses. No caminho uns finos do Diabo, se calhar é melhor ir de bicicleta? Siga lá miúda! Está a chover? Vamos àquela loja 24h dos chineses, os tipos vendem chapéus de chuva como quem vende abafados a agro-betos. Sim pá, aqueles chineses sempre com cara de poucos amigos, com olhares taciturnos, parecem os índios, sempre fodidos com os caubóis. Tantos chineses no mundo e eles com tão poucos amigos, não achas estranho? É porque eles nem contam cometas, só pode! Vamos lá, esquece isso, é segunda-feira e depois? Depois nada: hoje há chuva de cometas, o verão ainda não acabou, pelo menos em Buenos Aires, tenho quase a certeza que não! Mas vens ou não? Vamos de metro? Apanhamos o que diz “Reservado”, sempre quisemos ir para destino reservado. Observar cometas em destino reservado podia estar em quarto ou quinta na tua lista de desejos, logo a seguir ao teres uma aventura tórrida com o Gael Garcia Bernal, no meio do Utacama. Levanta-te pá, vamos em frente. Esquece isso, larga isso, estás parvinha? O futuro é um país aqui pertinho e nem precisamos de bilhete nem visto, já lá estamos. É um salto que nem precisa de ser clandestino para te pores logo fina. É isso, vem bailar, eu sei que gostas de dançar, olha dançamos depois o… hummm o mambo? O 5? Não pá, o dois ou ou três, mais que quatro mambos sem identidade chateiam para caraças. Eh pá, ouves a telefonia, os cometas estão aí, quantos não teremos já perdido? Ficas aí n’é, no teu sofá-puzzle do IKEA, a comer gelados do pingo doce e a rebolar pelos canais e pelo Messenger sem nada novo? Qual é a piada de jogar solitárias sem poder partir os baralhos? Bora lá miúda, tu ainda não sabes que quiseste vir! Olha o ponteiro dos segundos todo cínico a mandar-nos à cara o nosso desaproveitamento desta noite, vês? Vais ficar aí de pijama enquanto a vida muda de assunto e tu não tens voto na matéria? Olha que os cometas podem ficar zangados connosco, eles são tipo actores, precisam de público, precisam de ser embalados. Anda lá embalar cometas míuda! Eles podem ficar chateados e não querer cair. Vão ficar possessos! Irados! Irados sim, tão fodidos como ficaram as Zebras quando Noé lhes disse que a entrada na Arca era por ordem Alfabética: imaginas o quão encolerizados podem ficar? Isso, é isso: traz o teu Ipod, fazemos uma playlist das melhores canções dos nossos mundos e botamos uma shuffle esquizo-romântico de embalar … Esse vestido para veres cometas? É o mais bonito! Só tens um vestido feio e eu acho que o pusemos ontem no caixote dos vestidos feios, ali na esquina da rua dos passos perdidos, mas esse sim, sim! Esse é o mais bonito sim… Bom, se quiseres eu não olho enquanto te vestes para irmos ver cometas, embora todas as vezes que te vi vestir, outras tantas quis repetir e outros quádruplos despir. Nem pelo canto do olho miúda? Só de relance, posso mentir e dizer que a minha memória fotográfica já não é óptima para instantes! Só um nano-frame do corpo mais bonito do planeta onde hoje vão chover cometas, estou a pedir demais? Nem um frame? E se pedisse a longa metragem!? Ah, já estás pronta ...Sim… estás linda, não tenho nem preciso de palavras… Olha, achas que ainda precisamos da porra dos cometas? G.F.
terça-feira, novembro 17, 2009
dor de burro
Há quanto tempo não sentes aquela dor de burro? Quantos anos passaram desde a última vez que correste milhas só para espetar um patardo naquela bola cinzenta sem gomos e marcar o 10 a 6? Quando é que foi a última vez que fintaste os teus amigos todos mas o guarda -redes te estragou a tarde ao apunhalar o esférico mesmo em cima da linha de golo imaginária? Quantos anos passaram desde a última vez que chegaste a casa de ténis Olimpic de mofo e planta rota, meias encharcadas pelo canto desnivelado do ringue e uma vontade imperial de matar todas as sedes? Quando foi a última vez que caíste no chão a rir depois do livre ter sido directo nos tomates do Sérgio e indirecto no caixa d’óculos do Nuno Tiago? Quantos anos passaram desde que nos roubaram as balizas e a tua monte campo servia de argumento para golos altamente roubados devido a ressaltos de ficção amadora? Quando foi a última vez que festejaste um golo no ângulo e o dedicaste à miúda que achavas que tinha o cabelo mais fixe da turma? Há quanto tempo não sentes aquela dor de burro? G.F.
sou guloso
Sou guloso: como tudo, nunca pouso. Sou guloso, rapo tudo, sou manhoso. Sou guloso, saco tudo ao penoso. Sou guloso. Sou guloso... Sou guloso deslapido orgulhoso. Sou guloso, corrompo em tom sedoso. Sou guloso, amorteço a reforma ao idoso. Sou guloso em camarote do glorioso. Sou guloso, torço os cornos ao honroso. Sou guloso, prevarico cauteloso. Sou guloso, usurário escabroso. Sou guloso! Sou tão guloso! Sou guloso, apartidário faccioso. Sou guloso e o juiz é comichoso. Sou guloso e o juiz é meu esposo. Sou guloso, sou mesmo guloso! Sou guloso, dá-me um abraço caloroso. Sou guloso, transgrido em tom jocoso. Sou guloso, venero a bolsa ansioso. Sou guloso, suborno em tom gracioso.SOU GULOSO! SOU GULOSO! Som guloso de carácter gorduroso. Sou guloso nem sou muito ambicioso. Sou guloso chico-esperto luminoso. Sou guloso da verdade receoso. Sou guloso, o fulano mais untoso. Sou guloso o mais chato desdenhoso. Sou guloso, galocha em mundo pantanoso. Sou guloso, nunca acordo bem cheiroso. Sou guloso, sempre fui religioso. Sou guloso, nunca durmo rancoroso. Sou guloso de código ético gasoso. Sim sou guloso. E se um dia me quiserem tirar as gulodices, essa turba recta e invejosa: estou tranquilo, a nossa Família é gulosa. G.F.
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