Quarta-feira, Novembro 18, 2009


Há Dias 


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


Eugénio de Andrade
de Os lugares de Lume

cometas 


'Bora aí contar cometas miúda? È tarde? A cidade ilumina demasiado o espaço? Ia jurar que ontem vi um cometa daqueles bem grandes, aqueles cometas Alentejanos sabes? Ia jurar que os cometas também se despenham na cidade, tipo fogo sem artifício com os vectores desnorteados, ali sem alvos, só para caírem e nós a aproveitar as suas caudas antes de inexistirem. Bora lá miúda, pára de pensar nisso, pára de ler blogues narcísicos e vamos fazer filmes de cometas para pôr no youtube. Apaga a tua conta de facebook, despede-te da tua quinta e dos teus quizzes e dos feeds de quem já não ve os teus feeds. Despede-te disto e vem contar dois ou três cometas. Não estás propriamente sozinha. Nós também pensávamos estar, mas há sempre um étê que aterra de vez em quando e nos faz descobrir que somos bués e quês. Bora lá miúda, não comas mais gelados, larga a sic mulher, daqui a 1 ano ninguém vai saber quem são essas escanzeladas e nós vamos saber quantos cometas contámos esta noite. Bora lá, vamos de carro ou foguetão, depende do preço da gasosa. Vamos ao gordalhufo daquela churrascaria suada, molho tipo maçã “ranheta” à fartazana, ceia dos Deuses. No caminho uns finos do Diabo, se calhar é melhor ir de bicicleta? Siga lá miúda! Está a chover? Vamos àquela loja 24h dos chineses, os tipos vendem chapéus de chuva como quem vende abafados a agro-betos. Sim pá, aqueles chineses sempre com cara de poucos amigos, com olhares taciturnos, parecem os índios, sempre fodidos com os caubóis. Tantos chineses no mundo e eles com tão poucos amigos, não achas estranho? É porque eles nem contam cometas, só pode! Vamos lá, esquece isso, é segunda-feira e depois? Depois nada: hoje há chuva de cometas, o verão ainda não acabou, pelo menos em Buenos Aires, tenho quase a certeza que não! Mas vens ou não? Vamos de metro? Apanhamos o que diz “Reservado”, sempre quisemos ir para destino reservado. Observar cometas em destino reservado podia estar em quarto ou quinta na tua lista de desejos, logo a seguir ao teres uma aventura tórrida com o Gael Garcia Bernal, no meio do Utacama. Levanta-te pá, vamos em frente. Esquece isso, larga isso, estás parvinha? O futuro é um país aqui pertinho e nem precisamos de bilhete nem visto, já lá estamos. É um salto que nem precisa de ser clandestino para te pores logo fina. É isso, vem bailar, eu sei que gostas de dançar, olha dançamos depois o… hummm o mambo? O 5? Não pá, o dois ou ou três, mais que quatro mambos sem identidade chateiam para caraças. Eh pá, ouves a telefonia, os cometas estão aí, quantos não teremos já perdido? Ficas aí n’é, no teu sofá-puzzle do IKEA, a comer gelados do pingo doce e a rebolar pelos canais e pelo Messenger sem nada novo? Qual é a piada de jogar solitárias sem poder partir os baralhos? Bora lá miúda, tu ainda não sabes que quiseste vir! Olha o ponteiro dos segundos todo cínico a mandar-nos à cara o nosso desaproveitamento desta noite, vês? Vais ficar aí de pijama enquanto a vida muda de assunto e tu não tens voto na matéria? Olha que os cometas podem ficar zangados connosco, eles são tipo actores, precisam de público, precisam de ser embalados. Anda lá embalar cometas míuda! Eles podem ficar chateados e não querer cair. Vão ficar possessos! Irados! Irados sim, tão fodidos como ficaram as Zebras quando Noé lhes disse que a entrada na Arca era por ordem Alfabética: imaginas o quão encolerizados podem ficar? Isso, é isso: traz o teu Ipod, fazemos uma playlist das melhores canções dos nossos mundos e botamos uma shuffle esquizo-romântico de embalar … Esse vestido para veres cometas? É o mais bonito! Só tens um vestido feio e eu acho que o pusemos ontem no caixote dos vestidos feios, ali na esquina da rua dos passos perdidos, mas esse sim, sim! Esse é o mais bonito sim… Bom, se quiseres eu não olho enquanto te vestes para irmos ver cometas, embora todas as vezes que te vi vestir, outras tantas quis repetir e outros quádruplos despir. Nem pelo canto do olho miúda? Só de relance, posso mentir e dizer que a minha memória fotográfica já não é óptima para instantes! Só um nano-frame do corpo mais bonito do planeta onde hoje vão chover cometas, estou a pedir demais? Nem um frame? E se pedisse a longa metragem!? Ah, já estás pronta ...Sim… estás linda, não tenho nem preciso de palavras…
Olha, achas que ainda precisamos da porra dos cometas? G.F.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

ciências humanas 





dor de burro 


Há quanto tempo não sentes aquela dor de burro? Quantos anos passaram desde a última vez que correste milhas só para espetar um patardo naquela bola cinzenta sem gomos e marcar o 10 a 6? Quando é que foi a última vez que fintaste os teus amigos todos mas o guarda -redes te estragou a tarde ao apunhalar o esférico mesmo em cima da linha de golo imaginária? Quantos anos passaram desde a última vez que chegaste a casa de ténis Olimpic de mofo e planta rota, meias encharcadas pelo canto desnivelado do ringue e uma vontade imperial de matar todas as sedes? Quando foi a última vez que caíste no chão a rir depois do livre ter sido directo nos tomates do Sérgio e indirecto no caixa d’óculos do Nuno Tiago? Quantos anos passaram desde que nos roubaram as balizas e a tua monte campo servia de argumento para golos altamente roubados devido a ressaltos de ficção amadora? Quando foi a última vez que festejaste um golo no ângulo e o dedicaste à miúda que achavas que tinha o cabelo mais fixe da turma? Há quanto tempo não sentes aquela dor de burro? G.F.

sou guloso 


Sou guloso: como tudo, nunca pouso. Sou guloso, rapo tudo, sou manhoso. Sou guloso, saco tudo ao penoso. Sou guloso. Sou guloso... Sou guloso deslapido orgulhoso. Sou guloso, corrompo em tom sedoso. Sou guloso, amorteço a reforma ao idoso. Sou guloso em camarote do glorioso. Sou guloso, torço os cornos ao honroso. Sou guloso, prevarico cauteloso. Sou guloso, usurário escabroso. Sou guloso! Sou tão guloso! Sou guloso, apartidário faccioso. Sou guloso e o juiz é comichoso. Sou guloso e o juiz é meu esposo. Sou guloso, sou mesmo guloso! Sou guloso, dá-me um abraço caloroso. Sou guloso, transgrido em tom jocoso. Sou guloso, venero a bolsa ansioso. Sou guloso, suborno em tom gracioso.SOU GULOSO! SOU GULOSO! Som guloso de carácter gorduroso. Sou guloso nem sou muito ambicioso. Sou guloso chico-esperto luminoso. Sou guloso da verdade receoso. Sou guloso, o fulano mais untoso. Sou guloso o mais chato desdenhoso. Sou guloso, galocha em mundo pantanoso. Sou guloso, nunca acordo bem cheiroso. Sou guloso, sempre fui religioso. Sou guloso, nunca durmo rancoroso. Sou guloso de código ético gasoso. Sim sou guloso. E se um dia me quiserem tirar as gulodices, essa turba recta e invejosa: estou tranquilo, a nossa Família é gulosa.
G.F.

gajos da frente 


«Ora, topa-me só aqueles gajos da frente. Eles preocupam-se, contam os quilómetros, estão a pensar onde é que vão dormir hoje à noite, quanto dinheiro têm para a gasolina, se vai chover, como é que vão conseguir lá chegar… e seja como for eles vão lá chegar, vais ver. Mas precisam de se preocupar e de trair o tempo com urgências falsas ou não, meramente ansiosos e apreensivos. As suas almas só ficam sossegadas apegando-se a qualquer preocupação evidente e comprovada, e logo que a encontram assumem expressões faciais a condizer, que são, bem vês, de infelicidade, e durante esse tempo todas as coisas lhes passam ao lado e eles sabem disso e também isso os preocupa infinitamente. Ouve só! Ouve só!» Jack Kerouac, On the Road

Quarta-feira, Setembro 23, 2009

rearquitectura 


Era uma vez uma cidade sem gentes que fossem gente. Sem promessas de amor às dez pás quatro, sem miras nos miradouros, sem pianadas de jazz em bares já aferrolhados, sem putos a chatearem os pais para lhes comprarem mais uma tartaruga ninja. Nessa cidade, as gentes que não eram gente nem se apercebiam destas ausências. Andavam à deriva e ensimesmadas face à desmaravilha de não terem quase nada para oferecer os outros. O único pormenor que mais deixava vaga, e reparem que nem era a todos, só aos que usavam as perspectivas de quando a quando no zoom in, era o simples facto entristecedor de que esta cidade não tinha (e não havia memória de ter tido) linhas. Não tinha linhas. Nem cantos, nem molduras, nem círculos, nem losangos, nem sinais, nem quadros, nem edifícios, nem estradas, nem pontes. Nem cruzamentos. Simples facto entristecedor não, assunto mais trágico e mais grave que isso: é que nem sequer se via um rabisco clandestino nas mesas novas da É Bê, Dois mais Três.


Claro esteve que, como em todas as cidades sem gente que seja a gente, tinha de chegar alguém para gizar mudanças drástico/heróicas utopicamente criadoras, nos corações dos mais novos incautos, de bem-estar duradouro e assegurado para mais de cinco ou sete gerações vindouras. Mais simples: bastou, ao meio dia menos quinze, aterrar na cidade (a das gentes que não eram como a gente) um rapazola com um lápis amarelo e preto. Um lápizico com poucas afiadelas de vida. Trazia-o na orelha esquerda. Mais do que isso trazia de si um sorriso e uma ou outra ruga por, provavelmente noutros ontens, já ter repetido tal gesto. Além disso e principalmente, não trazia consigo quase nenhuma régua.

Nem foi preciso “aos poucos”. É que foi logo: tudo mudou. Força de peito, alma nos bíceps, a cada risco as gentes foram construindo aquilo a que mais tarde um outro chamou de «música petrificada». Estava arquitectada a nossa cidade de gentes já como gente e como a gente. E a gente esteve seis dias a beber e a comer. A gente esteve seis dias a fazer e a refazer o amor nas inexistentes fronteiras delineadas dos corpos, par a par. A gente esteve seis dias a metralhar preconceitos em tabernas e em varandas para aquelas fontes desenhadas por amor; A gente esteve seis dias a cantar medleys bem desatinados e grandes hinos bem desafinados. A gente esteve seis dias a usurpar-se sem licença da vida feliz uns dos outros. A gente esteve seis dias a libertar, sem artifícios, o fogo tão preso de tantos outros dias sem maravilhas. E ao sétimo dia? Ao sétimo dia a gente obviamente ressacou.

Foi quando, exactamente na esquina traçada dessa ressaca, uma miúda apareceu. Trazia uma borracha e achou (por bem ou por mal, por medo ou por sensatez - a gente não tem conclusões para isto), apagar devagar tudo o que tinha sido arquitectado. Claro esteve que, com tudo apagado, as gentes deixaram de ser gente. Voltaram às rotinas daquilo que mais sabiam fazer ou desfazer. Por exemplo, tentaram ter finais de tarde bem dispostinhos. Tentaram inventar palavrinhas como “saudade” para poderem falar, de mãos apoiadas na mesa do cafézinho, daqueles tempos em que não baixaram os braços. Tentaram ter programinhas de OTL alternativos e sublimar com fotogramas de autores neuróticos, as horas pop descomplexadas e o roque à antiga que as fez feliz nos dias em que havia projectos. Tentaram apagar-se em corpos já com fronteiras. Tentaram viver a vida que deviam viver e continuar a não ter nada para receber e ainda menos para dar. Tentaram ir poupando energia acreditando em ficções não consumadas mas seguras. Tentaram recalcar o próprio desenho a lápis do vento livre mas efémero. Depois de tudo apagado, as coisas foram voltando àquela bonança desalmada de outrora. E a gente? A gente foi-se tornando anónima.

Claro está que, como acontece sempre nestas cidades em que ainda há gente, nem tudo estava apagado. Secretamente precavidos de memória e uma ou outra folha de papel vegetal, algumas gentes conseguiram reservar algumas linhas de esperança. E o rapaz? O rapaz já só tinha um afia, mas ainda tinha o sorriso e as rugas do sorriso e as novas outras rugas dos dias apagados, não fosse o diabo tecê-las. Mais do que isso ainda tinha amigos. Noves fora, bastariam somente alguns dias mais apagados para que a cidade sem Gente voltasse a acender-se e voltasse a ser Cidade.

Bastaria isso ou, como todos sabiam mas ninguém queria profetizar, bastaria que aparecesse alguma miúda que odiasse borrachas e aterrasse na cidade de gente como a gente, por volta da meia-noite menos quinze, com um sorriso luminoso e um lápis. Ou uma lapiseira. Sim, uma lapiseira daquelas cor-de-rosa sabem? Tipo aquelas que as miúdas usavam para reconstruírem os nossos mundos, nas mesas da É Bê Dois mais Três.

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

sextas-feiras 


Amílcar Pereira 



Amílcar Pereira ainda dedilha as páginas amarelas quando precisa de alguém que perceba de sifões. Amílcar Pereira, 77 anos, ainda usa o seu telefone verde de discar. «Interessa-me aquele barulhinho, quando a roda volta ao início». A lista mais actualizada que tem é de 2001, ali ao canto, namorando a fuligem. Depois disso nunca mais lhe deixaram nenhuma à porta. Amílcar Pereira diz de cor saber 200 e tal números de telefone de amigos e familiares embora admita já se ter enganado neste ou naquele Zé. Amílcar Pereira até ao verão do euro, ainda era quem carregava ao ombro as botijas de gás. Agora trá -las com um carrinho de mão. Olha de soslaio para quem gosta de canalizar tudo, de lado para quem lhe promete o facilitismo e lhe promete mais tempo. Disse-lhes: Mais cómodo? Mais tempo? Para que quero eu mais tempo, tenho 77, caralho!». Olha para nós sempre com olhos de adeus. Sabe que não estará cá amanhã. Viveu todas as guerras: as mundiais e as outras mais bélicas, as conjugais. Amílcar Pereira não está cansado. Sabe perfeitamente o que é o Google e lamenta quem o conhece, porque ele sempre preferiu saber as coisas pelos outros. Lamenta quem lhe dá informação fidedigna. Lamenta quem não precisa de memorizar nada. Amílcar Pereira adora mentiras, bazófias, histórias de faca e alguidar, conquistas de marinheiros e tretas de caçadores. Lembra-se de tudo. De quase tudo. Uma vez esqueceu-se de renovar o cartão de eleitor. Vai-se esquecendo de votar : não era bem votar, era «rabiscar com afeito grandes pirilaus tal fosse o tamanho das listas». Quando chega a casa tudo lhe consola, principalmente porque ficou viúvo. Mente, sente-se vazio por não ter ninguém a quem dizer sempre que sim. Não precisa de novas oportunidades, foi pescando as que apareceram. Não tem necessidade de dizer aos outros o que pensa, o que está a fazer, o que acha da merda da crise ou da morte do «velho da Guerra.». Não tem necessidade de perguntar aos outros o que pensam, de lhes responder ao exibicionismo. Acredita num Deus fêmea, é a «única razão pela qual isto anda tudo fodido, mas é ao mesmo tempo tão bonito». Amílcar Pereira ainda dedilha as páginas amarelas quando precisa de alguém que perceba de sifões, de cifrões, de excomunhões. Amílcar Pereira, 77 anos, morreu hoje de manhã, maldizendo e blasfemando contra as mudanças instantâneas da vida. Jurou antes do último suspiro, amor eterno ao gerúndio e ódio imortal ao futuro próximo. Teve tempo de por umas palmilhas novas pois, acredita, que há-de ser longo o trilho para o inferno. Depois pegou no seu velho bandolim, deitou-se por cima de uma arca onde guardava os seus livros de cowboys, trauteou uma canção que a mãe lhe cantava e assim restou, dedilhando eternamente um fá sustenido, início de mais um Amílcar Pereira por inventar. G.F.

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

guiar-te. 

Bastavas tu para eu ser alegre. Sopro seco esvoaçando-me os cabelos, céu estrangeiro, mais uma manhã a menos. Descontando as bocas cruas que beijei ou os lençóis onde me perdi, o quociente de tudo era, sempre foi, guiar-te. Guiar-te pelos alpendres, pelos telheiros, desviar-te pelas arcadas. Parar-te para falar aos grandes amigos que aquele pequeno Mundo me fez conhecer. Conduzir-te pelas praças, de taça de vinho na sinistra mão e atravessar aquela ponte já longe, o rio sem meio de andar e os dois reflexos de nós correndo. Sozinho, completamente sozinho contigo. Só contigo eu navegava. Viver não era mesmo preciso. Partíamos todos os dias para os mesmos sítios, para as mesmas gentes, para os mesmos hábitos. E partíamos com a mesma estupefacção com que nos foragíamos em tardes de domingo para cada vez mais estranhas estradas distantes da nossa casa.

No pico de Julho, acelerava contigo. Refrescava-me com a brisa de uma saudade futura de te ter que deixar. Deixar-te de mão dada com Agosto a ausentar-se também ele a cada manhã ganha à nossa existência sem tempo. Tu e o melhor gelado da cidade na destra mão faziam-me esquecer o sol quente. Talvez fosse a nossa velocidade, o fervor das ultrapassagens aos sorrisos daqueles tantos passeios que nos admiravam. Sim talvez fosse a velocidade de um estranho num mundo fora do mundo a fazer-me esquecer de te imaginar depois, provavelmente já entregue a outro quando todos começássemos a regressar a novos inícios de capítulos.

Às vezes não me deixavas travar, levavas-me contra as coisas palpáveis, contra uma realidade que não me chegava a magoar, onde o chão proibia qualquer leite derramado. Fazias-me esquecer os prólogos e eu, tantas vezes embriagado, dependia de ti para alcançar todos, para tocar em todas. Para ser o Rei daquele mundo. Para chegar ao palco alegórico de tantas humanas noites. Para te redescobrir sempre e levar-te eu a nossa casa. Sempre hoje, sempre agora, era eu ou eras tu quem nos levava a casa? Amanhã serias de outro porque naquela dimensão és sempre livre e o outro também nunca será teu, por mais que te mude, ou te descubra cadeados distintos. O outro também vai ter de partir. Sim eu tinha a tua chave. E era arrebatado. Não por ti mas pelo que me fazias sentir. Quantas vezes caímos juntos? Quantas vezes me apeteceu bater-te por me teres falhado e desiludido? Quantas vezes me tiveste de levar pela mão para que não tropeçássemos nos carris ainda inúteis? Eu e tu na sombra, não tínhamos inicio nem fim: Continuavas-me. E por continuar, a humidade de sabor a solto nos meus olhos. E por continuar a majestade de possuir todas as nossas ruas, todos os outros sorrisos a derreterem-se daquelas clarabóias, todos os abraços de aperitivos, todo o meu super-heroísmo mal disfarçado.

Bastavas tu para eu ser alegre. Se me perguntarem se eu já sou feliz, eu posso circunscrever-me a responder que ainda não, não como quando te pedalava de olhos fechados a cantar a napolitana universal, embriagado de vinho, poucas virtudes e a poesia de ver um admirável planeta meu arquitectado de paz, girando ao meu redor. Cada vez mais rápido, esperança liquefeita nas maçãs do rosto, cabelos despenteados, mãos firmes agarrando-te. Se me perguntarem se eu já sou livre, terei que outra vez tropeçar, terei que me mascarar, terei que lhes dizer que ainda não. Pelo menos não tanto como quando te tinha, bicicleta roubada a Padova. G.F.

Sábado, Janeiro 24, 2009

rasteira 


Ontem rasteirei-te à saída do colégio. Tinhas o cabelo menos curto e eu tinha as tardes mais longas para poder jogar aos apurados na clareira que diziam lembrar o Barnabéu. Eu aperfeiçoava técnicas para te conseguir estatelada no chão e tu apuravas milhares de predicados e complementos indirectos com as tuas Polly Pockets. Não sabia o que eram recibos verdes, quanto custava o barril de petróleo ou que o meu pai podia um dia tornar-se velho. Nas noites de viagens na penumbra, não havia bairros, nem álcool, nem dilemas. O caminho para eu poder estar confortavelmente satisfeito era traçado a saquetas de cromos dos Caça-Fantasmas e ao facto de esperar que, no dia em que fosse novamente chefe de turma, entregar o teu dossier depois dos outros todos e deixar-te lá dentro um tosco desenho feito a a canetas de filtro Molin. Então viajava contigo por todos os países que o Eládio no canal 2 me falava e tornava-me no herói mais forte, mais bonito e mais adorado do Planeta e tu mais fantástica que todas as raparigas da nossa idade. Até quase da Ariel, a Pequena Sereia. Depois eu adormecia e, na manhã seguinte o meu despertador ainda era a minha mãe. Eu gostava de ti mas gostava muito mais dos apurados e do Brinca Brincando. Por isso, tanto me fazia que já não fosse a única pessoa a quem pedias o 5 no bate pé. Só que naquele dia tu estavas tão bonita que tinha mesmo de te rasteirar à saída do colégio. Não te aleijaste, o que prova a ineficácia das minhas rasteiras. Sorriste, chamaste-me parvo e perguntaste se eu queria uma pastilha gorila de banana ou morango. Eu escolhi morango e ficámos a tarde toda a rebentar balões peganhosos na cara um do outro. Mereceste e bem a rasteira que te fiz ontem à saída do colégio. G.F.

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

fissuras 




Nove minutos antes da maré encher totalmente subiram ao palco escuro. Procuraram ao longo da vida o silêncio e ali, quando o encontraram, a primeira coisa de que se lembraram foi de contar cometas. Depois fartaram-se, preferiram ouvir-se, beijar e gritar. Enunciaram o seu único manifesto de amor e empacotaram a megadrive, os cortinados, o ipod, os postais de Lubliana, o tapete, a máquina de fazer pipocas e o crucifixo. Optaram pelo Regional e só pararam perto de Vila Flor. Rodaram as chaves de casa. Duas vezes: e se roda duas vezes não está ninguém. Não estava. A maré já esvaziara e havia mais vontade, mais fome de se perderem nas roldanas do corpo um do outro, encontrando o amor de nenhum Deus além do seu orgasmo. De manhã um caos calmo depois do apostolado da carne e do prazer da entrega. Olharam-se um no outro, no escuro, no outro palco. Outra vez menos virgem, Maria adormecia no quarto crescente de Mohamed. Absolutamente diferentes sem precisarem de partir. Sol poente como no filme da tarde de domingo passado. Loiça do IKEA por lavar. Absolutamente diferentes sem precisarem de ficar. Pequenas imperfeições em cada um. Os sinos tocaram nas mesquitas e casaram-se, quando ao longe megafones lhes pregavam sarilhos. Encontraram-se nas lacunas um do outro. Um minuto depois da maré voltar a encher sabiam que tudo tem rasgos, fissuras. É exactamente por aí que a luz surge.
G.F.

(ao Patriarca)


Achas que já se foram embora?

fuga (em balão) 


Sovietes partem de balão foragidos, atalhando os céus que espelham o Barents. Sem Deus, com apenas a sua Cor, enfadados, dançam para esquecer o frio e relembrar a Mãe. Içam ainda rubras bandeiras. Queimam Gorbatchevs de 2x2, cantam internacionais. Há fome. Um esconde dos outros assassinatos em massa, outro acorda intermitentemente em arquipélagos de gelo siberianos, um último atira-se depois do último shot de vodka. Há estéril festa rija no balão desamparado sem destino. Todos iguais e acabados. Poucos esperam ser mais que foragidos. Diz-se que um, sorrindo, rezou pela primeira vez e chorou.

Executivos partem de balão foragidos, atalhando os céus que espelham o Beufort. Sem Dólares, com apenas o seu corpo, enfadados, dançam para esquecer o frio e relembrar a Bolsa. Içam ainda taças douradas. Queimam Che Guevaras de 2x2, cantam Sinatra. Há fome. Todos escondem de um que o vão comer cru, outro acorda intermitentemente em pangeias de bairros suburbanos dos avós, um último atira-se depois do último shot de vodka. Há rija festa estéril no balão desamparado sem destino. Todos diferentes e acabados. Todos esperam ser os melhores foragidos. Diz-se que um, chorando, rezou pela primeira vez e sorriu. G.F.

Guaranteed 



On bended knee is no way to be free
Lifting up an empty cup, I ask silently
All my destinations will accept the one that's me
So I can breathe...

Circles they grow and they swallow people whole
Half their lives they say goodnight to wives they'll never know

A mind full of questions, and a teacher in my soul
And so it goes...


Don't come closer or I'll have to go
Holding me like gravity are places that pull

If ever there was someone to keep me at home It would be you...

Everyone I come across, in cages they bought
They think of me and my wandering, but I'm never what they thought

I've got my indignation, but I'm pure in all my thoughts I'm alive...

Wind in my hair, I feel part of everywhere

Underneath my being is a road that disappeared

Late at night I hear the trees, they're singing with the dead Overhead...

Leave it to me as I find a way to be

Consider me a satellite, forever orbiting

I knew all the rules, but the rules did not know me
Guaranteed.

Eddie Vedder, Into The Wild, 2007

L.A.P.D. e N.Y.P.D. VS GNR 

Confunde-me a ineficácia e incompetência dos departamentos da Policia de Los Angeles e New York. Porque é que quando são preciso reforços, vão 2 agentes em cada carro, chegando a verificar-se um tráfego do arco da velha nas ruas limítrofes aos bancos reféns e inclusive pequenos acidentes ao estacionarem todos ao mesmo tempo? Até a GNR tem carrinhas e minibuses de intervenção. G.F.

grace 


Quando tinha 7 anos aprendi a canção “Amazing Grace”. Em pequeno, lembro me muitas vezes de me emocionar também com a beleza de algumas coisas. Na maioria das vezes quando estas me traziam ideias ainda muito vagas de liberdade, justiça e fraternidade. Sentia-me ao mesmo tempo muito triste, mas ao mesmo tempo muito feliz. Acho que foi assim que comecei a perceber o que era a esperança. Ao ensinarem-me o que significava a letra, emocionei-me. Ainda não percebia bem o que era a escravatura, mas acho que fiquei feliz por perceber que a música podia libertar e mais que isso que a poesia nos podia fazer acreditar. Hoje é dia 20 de Janeiro de 2009 e volto a ouvir a mesma canção. Hoje muito mais emocionado que ontem. Emocionado também como tu por ter testemunhado um dia histórico para a humanidade mas mais por perceber que ainda continuo a emocionar-me com a fé na esperança de uma mudança para melhor. Emocionado por acreditar em todos estes clichés que muitos outros quiseram continuar a senti-los apenas como clichés. Emocionado por sentir que é possível unir-nos. É verdade que à medida que envelheço vou perdendo alguma fé, também me vou desacreditando que os outros mantenham a coragem de ser boa gente. Também vou pensando nas conspirações, congeminações, nos lobbys, nas arrogâncias e no egocentrismo dos líderes. Mesmo que me estejam a enganar, hoje, tal como os meus amigos americanos, emociono-me. Porque volto a ter Fé não no Messias, mas em que é possível viver num mundo menos liderado por babuínos. Talvez agora os preconceituosos de sempre recomecem a ter respeito pelos americanos que não quiseram viver o pesadelo em que o mundo se tornou nos últimos 8 anos. Os preconceituosos hipócritas são esses, sósias dos outros que por duas vezes optaram por fazer regredir o mundo. São esses e estes que criticam os americanos por serem os polícias do mundo mas foram esses os primeiros a exigir a sua presença em Timor. Esses que os apelidam de paladinos da destruição da cultura familiar, cultivadores do ódio nas crianças, mas aprenderam as primeiras noções de democracia, de família, de igualdade, amor, através dos filmes infantis da Disney. Esses que criticam a América pela sua ignorância em relação ao Planeta mas nem eles próprios sabem dizer mais que 10 capitais dos países pertencentes à União Europeia. Esses próprios que desconhecem quando foi a Revolução Francesa, quem é Voltaire, o que foi o Iluminismo, ou como é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esses, acredito, hoje são menos. Hoje alguns desses começaram a olhar de outra forma para os Estados Unidos. Corrompidos pelas amarguras ainda? Sim. À espera que tudo se torne como dantes, para confirmar confortavelmente as suas expectativas mais pessimistas? Certamente. Mas hoje talvez hoje também alguns emocionados. Talvez se esqueçam que isto é tudo marketing ou talvez hoje abandonem as teorias de que na vida não existe poesia, existem apenas manobras de engate e coros manhosos com menor ou maior Q.I., propagandas egocêntricas em lógicas de ganho, de lucro, de superação. Talvez estes também se esqueçam, pelo menos hoje, que há pessoas que se juntam, que cantam, que rezam, que se abraçam, não porque tiveram a fumar umas, não porque são casais de swinguers hippies, não porque isso lhes fará propagar as suas redes sociais, mas sim porque, cantar com um estranho, rezar com um amigo, abraçar um vizinho nos faz sentir simplesmente muito melhor. Faz-nos sentir melhor, mais bonitos e mais fortes por sabermos que temos amparo, sem pensar que bonito, forte e amparo na mesma frase são panisgas expressões. Faz-nos acreditar que quando a crise estiver mesmo aí haverá abrigo. Faz-nos acreditar que quando outros quiserem apagar um povo inteiro de um mapa (como se isso apenas fosse mais um dia de brincadeiras com o GoogleEarth e o Photoshop) outros existirão a fazer frente, a romper a inércia e a desmascarar a ganância humana. Faz-nos acreditar que quando uns quiserem assustar-nos com o terror e subjugar-nos ao medo das intifadas, acenderão outros luzes e derrubarão os entraves dos labirintos mais angustiantes. Faz-nos acreditar que é possível existirem e continuarem a ser criadas estas canções de redenção e que serão elas também a darem-nos força e paz para a construção de um mundo novo, onde mundo novo seja um conceito demagógico apenas para os que não souberem usufruir dele, seja de facto um mundo melhor do que o que inesperadamente encontrámos no final do século passado, quando nascemos.


Quando tinha 7 anos eu ia acreditar muito mais em alguém que me dissesse o que acabei de escrever neste post ou que um dia seria possível ver descendentes de escravos, líderes de poderosos impérios mundiais. Quando “um dia” se torna “hoje” emociono-me tal como tu e não sei mesmo de que muitas outras coisas se poderão emocionar aqueles que hoje não sentiram esta esperança. G.F.

amores míopes 


Benedita quando não tinha óculos sentia-se nua. Acácio quando não tinha óculos sentia-se despido. Precisavam de se verem a si mesmos, ao espelho, nas montras, sempre vestidos. Em meados de Novembro de 1954 fizeram pela primeira vez amor depois de almoço, quando começou a chover e se cruzaram, na Brasileira, secando ambos as lunetas. G.F.

Um homem alto demais 


O poema que se segue é dedicado ao meu amigo Tiago, conhecido na Europa por Tiago Alto e em pequenos lugares por Pai Jordas. Talvez devêssemos na vida dedicar muitos poemas às nossas namoradas e por vezes a grandes amigos que gostem de poemas. Ainda o vou ver amanhã, mais uma vez, a despedir-se pela Beato Pellegrini em direcção à sua residência, depois de mais um ensaio da nossa eterna banda. Ao longe ainda o vejo e este poema é sobre ele:


eu vi um homem alto demais para caber nas casas. era muitas vezes dobrado como um papel e posto num canto como guardado. muito tempo o vi um dia em que ficou no parque sentado. estava na relva e todas as coisas que pertenciam às árvores pareciam querer conhecê-lo. algumas crianças gritavam com ele convictas de que não as ouvia lá no cimo da sua cabeça. as coisas que pertenciam às árvores por vezes afugentavam as crianças, e um homem assim competia com elas. frutos caíam com peso no chão, mal esquivados às cabeças tontas que se assustavam. eu vi esse homem alto demais a ir embora. algures no fundo da rua virou à direita. não o pude alcançar com a minha pequena bicicleta e começou a chover. juro que ainda percebi, acima dos prédios, a sua mão esticada no ar para se proteger da água ou abrir um alçapão no céu. Valter Hugo Mãe

Segunda-feira, Julho 07, 2008

5 anos 

Só agora reparei que fez, há poucos dias, 5 anos desde que abri este oráculo dos basbaques. Obrigado a todos e todas que me foram lendo ao longo de todo este tempo e especialmente a aos que mesmo tendo vindo há menos tempo, já leram tudo o que de mau e de bom havia para ler desde Julho de 2003, quando eu ainda era apenas um despreocupado estudante de Psicologia que decidiu publicar a escrita numa véspera de um exame. 5 anos é muito muito tempo...G.F.


tulicreme 


No dia em que descobri que os meus avós não eram imortais, doeu-me muito a cabeça. Achei muito estranho podermos desaparecer. Achei muito estranha a tirania de terem que desaparecer aqueles de quem mais gostamos. No dia em que descobri que os avós se podiam esquecer dos netos e dos seus filhos, mesmo sem desaparecerem, doeu-me muito a barriga. Achei muito estranho podermos perder a memória. Achei muito estranha a tirania de um dia deixarmos de nos lembrar de quem gostamos. Nesses dias deixei de ser criança por alguns momentos. Mas depois disseram-me que a vida não era assim tão dura ainda. Deram-me então torradas com tulicreme. Passou-me a fome e passou-me a angústia. Entretanto cresci. Na noite em que descobri que as namoradas podiam deixar de gostar de nós, doeu-me muito o coração. Achei muito estranho podermos deixar de amar. Achei muito estranha a tirania de um dia não termos vontade genuína de responder “eu também” e apenas sorrir. Na manhã seguinte quis comer outra vez torradas. Só a fome passou: o tulicreme já não sabia e já não sabe ao mesmo.

Depois passado uns anos, numa tarde de verão, deram-me um frasco de nutela e eu deixei de achar tudo estranho. Nesse dia voltei a ser criança por alguns momentos. Passou-me a angústia mas ainda fiquei com mais fome. Gastei frascos e frascos. A nutela continuou a saber ao mesmo. Se um dia os senhores do marketing mudarem o sabor da nutela, espero que alguém me ofereça uma coisa mesmo boa para barrar as torradas. G.F.


ladrões 


Anteontem Madalena pediu a Jeremias que fosse roubar todo o sal do mar por ela. Jeremias não conseguiu, foi ao LIDL e comprou um 1 kg de sal fino. Nem do grosso se lembrou de comprar. Escreveu num papel com uma bic “Todo o sal do mundo, para ti Madalena”. Ela acreditou e beijou-o. Ontem Madalena pediu a Jeremias que fosse roubar toda a luz do mundo por ela. Jeremias não conseguiu, foi a uma loja dos chineses e comprou uma lâmpada. Nem das ecológicas se lembrou de comprar. Escreveu num papel com uma bic “toda a luz do mundo, para ti Madalena”. Ela acreditou e fizeram outra vez amor durante toda a noite. Hoje acordaram e Madalena pediu a Jeremias que fosse roubar por ela todos os doces do mundo. Jeremias não conseguiu, foi à mercearia do Senhor Garcia, comprou 3 rebuçados, 2 chupas de morango e 200 gramas de gomas. Nem chocolates se lembrou de comprar. Escreveu num papel com uma bic “todos os doces do mundo, para ti Madalena”. Ela acreditou e tiveram 12 netos. G.F.


Tu estás aqui 

Estás aqui comigo à sombra do sol

escrevo e oiço certos ruídos domésticos

e a luz chega-me humildemente pela janela

e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou

Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano

e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama

que uso para ser também isto este bicho

de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos

quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem

o que sei o

que faço ou então sou eu que julgo que o sabem

e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras

e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou

outra coisa

esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior

a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço

bem entendido o que faço com este braço

Estás aqui comigo e à volta são as paredes

e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa

e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho

e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado

passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes

esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa

essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol

Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso

diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome

este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro

nome embora no mesmo nome este nome

de terra de dor de paredes este nome doméstico

Afinal fui isto nada mais do que isto

as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto

a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome

que não merda

e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das

outras coisas

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto

pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa

uma coisa para além disto que não isto

Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo

é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos

mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos

tu és em cada gesto todos os teus gestos

e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como

a palavra paz

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas

perdoa pagares tão alto preço por estar aqui

perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui

prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente

deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias

e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer

sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

Ruy Belo
Toda a Terra
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000


Mina Lunar 

Acabou de pisar uma mina lunar. Estilhaça em câmara lenta. A gravidade não sustenta os pedaços de si própria. Vê-se despedaçar pianamente. Fragmentos da sua identidade relativa, distribuídos aos milhares em avanços milimétricos pelo universo tornado finito. Acabou de pisar uma mina lunar. Rebenta por dentro e por fora numa explosão retardada ao absurdo da demora. Ela acabou de pisar uma mina lunar e agora eclode devagar vendo-se a si própria dividir, desencontrando-se numa dor mais que gerúndia. Ela acabou de pisar uma mina lunar. Calcou-a na curva da emboscada. Agora pulveriza-se morosamente sem qualquer serenidade própria de quem queria adiar mais um pouco. Sem retardo desfaz-se em frames. Não há fogo, não há cheiro a pólvora, não há sangue, não há cinzas e deixa cada vez mais de haver chão. Não há sequer velocidade suficiente para ela não poder ver o seu dissociar. Observa, obrigada, a repartição confusa de si mesma. Tudo teria sido fácil se tivesse pisado uma mina terreste. G.F.


Quinta-feira, Abril 24, 2008

e o vencedor não é. 


- Depois de 5 candidaturas ainda não há vencedores. Tive dúvidas. Penso ter dito que o meu maior critério para escolher quem quer que fosse, era ter certezas.


- As razões para essas dúvidas são várias.

- As pessoas que me responderam vão ter, cada uma, uma resposta minha que incluirá as respostas que eu daria a esta «bizarra» iniciativa e um agradecimento pelo tempo investido.

- Pode ser que até por volta das 19h00 do dia 24 de Abril de 2008 apareça alguém que me tire as dúvidas. Se isso continuar mais uma vez a não acontecer, terei a companhia dos amigos para estes e outros circos das nossas vidas.

- Se alguém chegar aqui depois do Circo, responda. Há mais vida além de Bilhetes.

- Se me plagiarem este concurso, nunca me citando, como um amigo meu fez no seu blogue, tenham a bondade de me o dizer como esse meu amigo também fez. Eu às vezes aceito bem elogios.

- Espero que a mulher da minha vida não tenha deixado de responder a este inquérito pelo exacto motivo pelo qual eu também não o faria. G.F.

Domingo, Abril 13, 2008

Vamos ao Circo do Sol? 


E se um desconhecido te oferecesse uma flor? Provavelmente seria do Bangladesh e terias de dar em troca alguns cêntimos. Com sorte, receberias também a tiara. E se um desconhecido te oferecesse um bilhete para o Cirque du Soleil, véspera da madrugada da nossa Liberdade, 24 de Abril? E se o bilhete, secção platina, fosse no valor de 65 euros e para poderes ver ao vivo a viagem de Quidam*, tivesses que simplesmente de enviar um currículo? Tu irias?

Iniciativa:

1 -É muito simples. Eu tenho um bilhete mágico e quero dá-lo. Mas decidi encontrar um critério laborioso. Gostava de o dar a alguém que fosse, hipoteticamente, a mulher da minha vida. Não acho, genuinamente, que ela vai surgir através desta iniciativa mas acho que devia pelo menos tentar: ela e eu nunca nos perdoaríamos se eu não o tivesse feito. Também não acho que vai ser através das palavras que vou encontrar a mulher da minha vida. Eu dou felizmente ou infelizmente muita importância à atracção física. Mais importante que isso, as palavras iludem. Facilitar-me-ia conhecer alguém com um currículo interessante, original e sincero onde achar que o deve ser. Que fosse sobretudo muito bonita e que eu já conhecesse. O conjunto “dessas”, seria além da minha companhia no espectáculo, a mulher da minha vida. E também gostava de ganhar a lotaria, de conseguir tele-transportar-me e de que a minha família nunca morresse. Enfim, uma ligeira utopia por dia dá uma certa alegria.

OU

2- Gostava de conhecer melhor as pessoas que me lêem e premiar alguma com um bilhete apenas porque também as gostei de ler.

Regulamento:

1- Só tens de copiar directamente os pontos A, B e C, ali mais à frente para um Doc de Word. Depois só tens de dispor de várias horas inúteis para responderes ao necessário. Gravas, abres o teu servidor de mail, atacas o ficheiro, e no assunto pões “Quero ir ao Circo” ou “Quero ser a mulher da tua vida”, consoante a motivação e/ou coragem. Atacas também uma foto tua. Envias tudo para basbaque@portugalmail.pt Então depois esperas.

2- Qualquer pessoa pode responder, mas vou ter apenas um critério parcamente racionalista para a escolha:o meu instinto. Se eu tiver dúvidas, ninguém ganhará. Queria acrescentar ainda que gostava muito que me respondessem mesmo que saibam que não vão ganhar. Gostava sinceramente de ler as respostas e de ter várias raparigas (e rapazes se assim sentirem vontade de fazer) a enviar currículos. Seria bonito para o meu ego naqueles 5, 7 segundos antes de adormecer, para voltar a acordar deprimido. Mesmo não havendo ganhadores, o envio de respostas poderá continuar depois de dia 23 de Abril, até eu sentir que isto foi uma acção extremamente naif e ridícula. Ou até me casar.

3- Podes não responder a alguma das perguntas. Não serás prejudicada por isso. Podes não enviar foto: serás prejudicada por isso.

4- Ganhar o bilhete significa apenas que foram as respostas que mais apreciei e que me senti à vontade para ir com essa pessoa. Aquela parte ali em cima da mulher da minha vida, tem que ver apenas com romantismos infantis que exigirão, depois, mais entrevistas, estágios, e os procedimentos normais do amor a dois. Ou seja ir, não terá a pressão de segundas intenções, será apenas ir.

5- De todas as pessoas que eu poderia convidar para ir, só queria que fosse uma. As outras seriam segunda escolha e eu não me sei decidir por isso. Como a minha amiga Ana Elisa não vai poder ir, se ganhares serás uma segunda - escolha. (a não ser que sejas a mulher da minha vida, mais uma vez).

6- O prazo limite para o envio dos currículos é dia 23 de Abril às 19h02minutos.

7- Os resultados serão publicados dia 23 de Abril, pela noite dentro.

8- As respostas do vencedor não serão publicadas a não ser que haja desejo expresso do próprio. São confidenciais todas as respostas de todos os participantes.

9- Se ganhares e não quiseres ir, ainda não sei como regulamentar. Provavelmente também não irei, e ficarei em casa a ouvir Radiohead.

O que tens de enviar?

A- Carta de Motivação: Porque queres ir comigo ao espectáculo Quidam, do Cirque du Soleil?

B- Currículo:

-Nome verdadeiro

-Nome fictício.

-Morada actual (apenas o nome da rua com um pequeno resumo da wikipedia sobre esse substantivo próprio basta)

-Morada de sonho (apenas o nome da rua do macdonalds mais perto e o indicativo do país no caso de ser estrangeiro, basta.)

- Mail

- Experiência profissional de brincadeiras durante a infância. (3 ou mais brincadeiras de infância relevantes e o porquê de te terem tornado feliz, basta).

- Principais funções e responsabilidades quando tinhas 14 anos.

- Principais actividades extra curriculares que odiarias fazer.

- Principais vocábulos para definir o teu local de trabalho ou as tuas aulas. Ou o teu desemprego.

- Língua Materna

- Língua Bifurcada?

- Aptidões e competências sociais. Se só conseguires tocar com a língua no nariz, basta.

- Aptidões e competências organizacionais numa relação amorosa. (1 técnica de gestão ,mesmo que seja de conflitos, basta)

-Aptidões e competências informáticas. (se eu te enviar um mail e tu não reenviares para a tua lista do msn, basta)

- Aptidões e competências artísticas. (tocar kazoo não basta).

C- Inquérito Major de Despistagem Final:

- Qual a tua opinião fundamentada sobre o Escutismo?

- Quem matou J.F.K.?

- Tens cócegas?

- Qual a tua opinião fundamentada sobre o aquecimento global?

- Indica três qualidades que aprecies num ser humano e uma numa pedra.

- Estás perdida na selva e só tens uma agulha, o que fazes?

- Estás perdida no deserto e só tens roupa interior e um megafone, o que fazes?

- Estás perdida numa ilha, tens de decidir entre dois grupos, vais com o Locke ou vais com o Jack?

- Os teus colegas astronautas deixaram-te sozinha na lua porque só podiam entrar 2 no foguetão. Tens 2 horas de vida, o que fazes?

- Quem te vês, em 2018?

- Se pudesses mudar a cor do céu por 3 horas o que farias?

- 3 Guerra mundial, caos e Armagedão. Tu vais ter de comer sempre o mesmo prato até ao fim dos teus dias, ao almoço e ao jantar. Tens apenas duas hipóteses, ou escolhes um prato de douradinhos com arroz de tomate (só dois e frios) ou escolhes um programa de computador que aleatoriamente te bloqueará um número entre 50 pratos: 49 são iguarias, os teus pratos favoritos e 1 é cocó. Qual das duas hipóteses escolhes e porquê?

- Tens de cortar uma parte do corpo porque disso depende a tua vida, qual escolherias?

-Média final de secundário. Porquê?

- O que nos distingue fundamentalmente dos animais?

- Quantos pêlos tem um gato?

- Final da Liga dos Campeões de 2008/2009. 87 minutos, Real Madrid 1 – S. Lisboa e Benfica 1. O Rui Costa entra para terminar afinal a sua carreira desportiva. Livre directo, bola no ângulo superior direito, golo antológico. O que sentes?

- Qual a actriz mais parecida contigo?

- Qual o actor mais parecido contigo?

- Qual o animal mais parecido contigo?

- Qual o artigo da AKI mais parecido contigo?

- Fazendo uma análise estatística, qual a percentagem de relações amorosas sérias em que foste tu a deixar de gostar?

- Já alguma vez traíste um namorado?

- Que telejornal costumas ver?

- O copo está meio vazio ou meio cheio?

- O tamanho importa?

- A tua casa está a arder e tu só podes salvar 1 objecto, qual?

- Quem matou Roger Rabit?

- Tens a oportunidade de dizer tudo o que quiseres de algum dos teus chefes ou professores que não gostes, ainda por cima pagam-te por cada ofensa, o que dizes?

- Envia neste mail um link com um vídeo qualquer à tua escolha que aches que eu ia gostar.

- Os soldados no Darfur fazem uma conferência de imprensa: acabaremos o genocídio se tu te despires para a Playboy. O que fazes?

-Qual a tua virtude principal?

- Qual a melhor revolução da História?

- O que achas das sanitas que têm o nível da água demasiado perto do rabo?

- Qual o teu provérbio preferido?

- Chaimite ou BMW?

- Praia da Arrifana ou Bora-Bora?

- Uma carreira profissional ou uma viagem à volta do mundo de mochila às costas durante 7 anos?

- Bebida preferida?

- Como gostarias de morrer?

- Afinal morreste mesmo: Deus afinal existe, o que lhe perguntas?

- Qual a tua asneira preferida?

- Qual a última peça de teatro que foste ver?

- Gostas de música portuguesa?

- Se eu merecesse algum elogio, qual não te importavas de me dizer?

- Se eu merecesse algum comentário depreciativo qual terias vergonha de me dizer?

- Fantasia sexual ainda por experienciar.

- Que homens te dão calor?

- Define numa frase o que é para ti um Orgasmo?

- Este inquérito desperta algum vontade carnal de me agarrares e levar para a cama, dizendo, estou farta de responder a estas perguntas, vou mas é abusar de ti?

- Se um dia só tivéssemos uma noite de amor e o mundo fosse acabar no dia seguinte às 7h45 o que faríamos?

- 5 músicas para a banda sonora da tua vida.

- Se nós os dois fossemos duas personagens de um livro ou de um filme ou de uma peça que te tenha sido marcante quem gostavas que fossemos?

- Preferes perguntas ou respostas?

- Que pergunta/as achas que falta a este inquérito?

FIM DO CONCURSO


Há muito que não escrevia. Não me interessa esmiuçar todas as razões. Uma das três principais tem a ver com a mãe de todos os vícios, a preguiça. A outra é porque estive ocupado no mercado à procura de mais ingredientes de escrita. Agora voltei para oferecer uma noite de circo e magia a alguém ou então regressei pelas mesmas razões porque sempre quis mostrar a alguém o que pensei. G.F.


*Quidam: um transeunte sem nome, uma figura solitária numa esquina da rua, uma pessoa a passar apressadamente. Podia ser qualquer um. Alguém a chegar, a partir, a viver na nossa sociedade anónima. Um elemento na multidão, um entre a maioria silenciosa. Aquele dentro de nós que grita, canta e sonha. É este o "quidam" que o Cirque du Soleil celebra.

Uma jovem rapariga enfurece-se; ela já viu tudo o que há para ver e o seu mundo perdeu todo o significado. A sua raiva despedaça o seu pequeno mundo e ela encontra-se no universo do Quidam. A ela junta-se um companheiro alegre, assim como outra personagem, mais misteriosa, que vai tentar seduzi-la com o maravilhoso, o inquietante e o aterrador.


Sábado, Agosto 04, 2007

wake up 


Acordem.

Acordem, atem-nos os atacadores e façam-nos cair. Bombardeiem-nos com balões de água em largas doses de pneumonia. Façam-nos tropeçar e alegremente riam-se de nós. Soltem esbaforidas gargalhadas cruéis e apontem-nos os dedos.

Acordem e atirem-se à lama. Antes do deleito nos charcos, certifiquem-se que esbanjam o detergente fora para nós ficarmos mesmo lixados. Aproveitem e peguem em jornais antigos, roubem-lhes o conteúdo e troquem-no pelo recheio do jornal de hoje. Deixem só a primeira página. È que às tantas nem nos vamos aperceber que está tudo igual.

Acordem, chorem e gritem. Esperneiem e rebolem pelo chão. Queiram ter tudo e queiram sonhar com tudo. Exijam tudo.

Acordem e corram até perto dos precipícios só para nos pregar cagaços. Peguem nos lápis de cera e destruam tudo o que for branco. Tudo o que é branco exige riscos de amor. Risquem tudo e apaixonem-se pela tinta. Ou odeiem os baldes de tinta, ponham fulminantes e bombinhas lá dentro. Pulem e gritem no caos que acabaram de produzir.

Acordem e vão roubar as maçãs. Não as comam, atirem-nas, principalmente à cara dos vizinhos que vos costumam furar as bolas de futebol. Aproveitem e invadam os nossos teatros que vocês não conseguem perceber e belicamente dizimem os encenadores com maçãs e tomates. Quanto mais podres melhor. Quanto mais sujos e mais acordados melhor. Invadam as nossas lojas de gomas. Pilhem todas as gomas em gigantescos carrinhos de mão. Comam todas as gomas. Distribuam gomas por todos nós, deixem aquelas que sabem a cocó para os vizinhos que costumam furar as bolas de futebol. Enfardem-se de gomas até se engasgarem. Até vomitar. Depois ponham o vomitado no microscópio e maravilhem-se com a beleza do universo. De caminho abram os nossos microondas. Todos os insectos que conseguirem apanhar em 2 horas despejem-nos ai dentro. Programem para meia hora e assistam ao holocausto em directo.

Acordem e rejubilem-se por poderem fazer tudo o que quiserem. Dispam as desculpas. Vão todos nus para a praia e provem a areia até que sejam conduzidos por nós ao hospital velozmente na melhor ambulância de sempre. No hospital aproveitem tudo o que for de borla e recebam presentes. Tentem ir várias vezes parar ao hospital para que nós vos demos presentes. O natal e o aniversário não chegam porque vocês já terminaram todos os níveis e todas as colecções.

Acordem e precisem de mais coisas simples. Cantem bué até à afonia. Cantem porque afinal vossos corpos nunca vão envelhecer e as vossas rugas serão apenas preocupações para os que ainda no meio de nós estiverem a dormir. Lembrem-se que pelo menos nos espelhos vocês vão ter sempre ranho no nariz. Isso, nunca se assoem, façam competições de quem é mais ranhoso.

Acordem e façam com que todas as raparigas e rapazes se odeiem. Ódios viscerais que antes do primeiro beijo se tornarão em amores eternos. Não tenham medo de odiar. Peguem nas nossas bicicletas e pedalem revoltando-se. Se não souberem andar não faz mal, ponham rodinhas. Venham todos despenteados e fujam daí, fujam de nós, sem capacetes, sem joalheiras. Ninguém passará do chão e depois vai ser fixe rebentar as crostas só para sentir mais um bocadinho a dor.

Acordem, peguem e toda a roupa que tiverem e enviem para os que têm frio. Depois façam xixi nas gavetas vazias: é a única forma de perceber Física.

Acordem e brinquem com a pilinha e com o pipi. Com o vosso e com o dos outros. Brinquem enquanto não for preciso procurar respostas.

Acordem e procurem todos nós gordos e estigmatizados que encontrarem e chamem-nos de Badochas. Cus de Bomba, Monte de Banhas, Zarolhos, Coxos, Caixas de Óculos, Barrotes Queimados, Gigantones, JoõesCagalhões. Inventem ofensas e depois quando eles vos espancarem saibam chorar com honra, façam as pazes e vão ver desenhos animados juntos.

Acordem e embasbaquem-se com a primeira vez que vos embala a magia do grande ecrã, o primeiro gelado de chocolate ou o primeiro elogio.

Acordem e abracem-nos sem medo de dizer que gostam de nós sem quaisquer condições.

Acordem e procurem o amor.

Adultos, acordem. G.F.


(a todos os que sentiram como seu, o hino dos Arcade Fire.)

hábitos 

Era uma vez um Franciscano gay. Ele queria ser estilista, mas naqueles tempos era alvo de uma perseguição atroz. Não por ser gay, mas por querer ser estilista. É que Antigamente respeitava-se um dos dogmas centrais do clero: “Um hábito não faz o Monge!” Ele não podia fazer nem um nem dois, nem tão pouco um capucho. Nada :( Apenas a miséria.

Pergunto-me por vezes quem faz então os hábitos? G.F.


à terceira vez, acordámos. 


Não é que à terceira vez que acordámos já era amanhã? Sim, não era hoje, era tudo amanhã.

À terceira vez que acordámos tinham-nos assaltado. Ficámos sem o agora. Tornamo-nos calados.

À terceira vez que acordámos tínhamos deixado de ser intemporais. Não havia tempo mas havia um perfume de tardíssimo. Era tão amanhã que quando fomos ao supermercado disseram-nos que já não se fazia coca-cola há algumas décadas: “deixaram de gostar”. Era tão amanhã que quando me viram de boxers e de equipamento do Nápoles número 10, me trataram por Maradona. Tentei explicar-lhes pormenores, dar-me a mim também um passado. Até lhes falei da mão de deus pá e eles perguntaram-me “quem era Deus?”

À terceira vez que acordámos era tão tarde que já nem haviam culpas nem infernos. Era madrugada, mas naquela terceira vez cheirava a final de tarde. Não tínhamos agoras e não sabíamos como iríamos sobreviver àquele assalto. E continuámos sufocados pelo constrangimento.

Tinha sido a terceira vez que acordávamos e tinham-nos roubado o dia de hoje, os cabrões. Tinham-nos despido e tapado a boca. À terceira vez que acordámos já não havia nada a fazer. Tinham-nos profanado os peitos e asfaltado os corações. Por eles passavam a alta velocidade carros de corrida. À terceira vez que acordámos ainda conseguimos ver pelos seus retrovisores, sorrisos cínicos de quem tudo sabe sobre o entardecer.

À terceira vez que acordámos pegámos no que restava dos nossos lençóis. Era tarde demais já e por isso não apagámos a sombra das duas pessoas que neles estava bordada. Em vez de tentarmos adormecer pela quarta-vez despedimos-nos. Tu foste procurar outras sombras. Eu fui à loja de penhores perto da estação de comboios, deixei os lençóis em cima do balcão e vim para casa com algumas sementes de Presente. G.F.


conquista budista 

Nunca me vangloriei com nenhuma das minhas conquistas (estou a reservar todas as estórias para os meus netos). Nunca o disse aos 7 ventos especialmente porque talvez nenhuma tivesse sido conquista, fui eu a parte achada e conquistada. Mas tenho a certeza que se um dia conhecer alguma seguidora de Dalai Lama, bonita (e com cabelo) e suas faces se ruborizarem na minha presença, gaguejando ao falarmos, eu vou dizer orgulhoso aos meus netos: “Eu até uma vez deixei uma budista nervosa”. G.F.


o porco Ateu 


Era uma vez um porco que não conhecia Deus nem a Morte. Um dia a sua avó, também porca, morreu. O porco ficou muito triste e não compreendeu a ausência eterna da sua avó. “Onde estaria agora?”. Alguns dias procurando “porquês”, o triste suíno foi ter com um mocho rabino. Este disse-lhe através de apaziguadoras palavras que a porca avô do porco se encontrava no céu, “bastava olhar para lá e rezar”. O porco, sem dizer nada ao mocho, foi-se embora chorando.

È que o mocho não sabia que, anatomicamente, os porcos não conseguem olhar para o céu. G.F.


fragmentos para algum qualquer filme português a roçar o intelectualoide 



Há tempos ela perguntou-lhe se ele fosse ditador por uma tarde, qual era a sua primeira tirania. Ele respondeu-lhe que “estabeleceria um padrão estético baseado na beleza dela. Todas as mulheres do novo império teriam de ser iguais a si ou seriam enviadas para outros impérios”.

“Mas assim acabava por perder o meu encanto já que não me podias comparar com ninguém, além disso com a falta de mulheres todos os homens do império iriam lutar para ter uma parecida comigo e ainda mais gananciosos se tornariam por me ter. As outras mulheres ficaram deprimidas por nunca conseguírem atingir o meu padrão e tornar-se-iam más amantes. Os homens que não tivessem o mesmo gosto que tu, viveriam infelizes e seriam maus amantes. Basicamente acabariam todos por nos assassinar para serem mais felizes. Isso talvez fosse a pior medida de sempre tomada por um ditador de um dia!”

“Eu estava só a tentar dizer-te algo bonito”
“Ah ok, então o que farias na realidade?”

“Quero lá saber da realidade, só estava a dizer-te que as mulheres do mundo deviam ser todas como tu.”

“Mas se fossem, nós morreríamos!”
“E se morrêssemos? Somos felizes, morreríamos felizes. Além disso daríamos motivos para revolução e felicidade dos outros.”

“Um tirano nunca pensaria assim…”

“Um tirano nunca seria tirano só por um dia…” G.F.

Sábado, Abril 14, 2007

o meu word é poeta. 

O meu Word não gosta que as minha viagens sejam catárticas. Prefere apelidá-las de catraias sem eu me ter apercebido do erro antes da publicação do post anterior. Gosto de Viagens Catraias. Viagens pequenas, como ir daqui até à cama. Ou viagens de putos, como ir daqui até Plutão. G.F.

Minuto Capicua 


As duas melhores viagens catraias de carro que se podem fazer em Portugal são ir e vir do Sudoeste Algarvio. Bastam estas duas viagens para podermos dizer que tivemos Férias. Foi na segunda dessas que eu, com a ajuda da Ana Elisa, inventámos um conceito que vai revolucionar o mundo: o Minuto Capicua. Espero humildemente que ninguém até hoje tenha pensado nisso. Sinto o perfume da revolução. Ou isso ou apenas uma bonita «parvoíce» parafraseando com tristeza os Gatos que aos poucos se vão apoderando de todas as patentes vocabulares castiças povo-portuguesas. Mas é por estas parvoíces que ainda vale a pena estar vivo. E ter férias.

O Minuto Capicua existe apenas 16 vezes por dia. Isto calculei enquanto esperava um autocarro entre Torres Vedras e Lisboa. Como tal autocarro demorou menos tempo que o previsto, pode ser que existam mais Minutos Capicuas. Se sim, alguém me corrija. Como dizia, o Minuto Capicua existe 16 vezes por dia. São 16 oportunidades raras de pescar o tempo. Eu nunca gostei muito da lamechice do “seize the day” ou do “carpe diem” dedicatorial dos finais dos Sextos, Nonos e Décimos Segundo anos. Contudo, há que parar muitas vezes para pensar. Ou há que parar, talvez baste. Todos os que me lêem deviam portanto fazer uma cópia do seguinte texto e faze-lo passar a todos os seus contactos de msn, hi5, myspace, orkout, páginas amarelas. Juntos, unidos pelo Minuto Capicua, faremos um mundo melhor:

Tu és quase feliz? Estás quase deprimido? Então vem e junta-te a uma comunidade com milhares de seguidores em todo o mundo. Junta-te a nós e celebra o Minuto Capicua. Decora bem: 0h00, 01h10, 02h20, 03h30, 04h40, 05h50, 10h01, 11h11, 12h21, 13h31, 14h41, 15h51, 20h02, 21h12, 22h22, 23h32.
Durante 60 segundos, e se quiseres até 16 vezes por dia, o Minuto Capicua dá-te paz. Dá-te liberdade. O Minuto Capicua dá-te tudo aquilo que nunca nenhum outro banal minuto te deu. Sim, se não sabias então torna-te desde já um conhecedor: existem comuns e vulgares minutos condenados à irascível insignificância de serem constituídos por segundos que em si nada reflectem uma existência plena. Mas eis que, desse marasmo temporal… Surgem os…. Minutos Capicuas! O Minuto Capicua é algo mágico. O Minuto Capicua restabelece as tuas energias, confere-te defesas para um dia a dia agitado. O Minuto Capicua é fixe, o resto dos minutos que se lixe. Glorioso Minuto Capicua Glorioso Minuto Capicua. Com o Minuto Capicua o bem-estar já não recua. Minuto Capicua, SEMPRE!
Não estás convencido? Não precisas. O Minuto Capicua convencer-te-á. Já pensaste no que é ter 16 vezes por dia uma oportunidade de fuga? Larga todas as drogas. Usa esses 60 segundos do Minuto Capicua para o que quiseres. Desde que te lembres que estás a viver mais um Minuto Capicua. Assim que vires que está prestes a chegar um Minuto Capicua: inventa, grita se quiseres gritar, esconde-te, congela, congela os outros, diz chispas, diz sabão, canta liricamente Minuto Capicuuuuuuuuuua. Dança um Hula, dança a dança da cobra está fumando, dança a dança da chuva. Diz Minuto Capicua em todas as línguas que te lembrares e não vale ir ao Google ver como se diz Capicua em Sueco. Finge de Morto, rebola. Faz cartazes a dizer “Estou a viver um Minuto Capicua, não me incomode”. Telefona aos teus amigos e diz “hey hey hey, estamos a viver um Minuto Capicua, não me digas que não o estás a festejar?” Faz concursos a ver quem se lembra mais vezes que se está a viver um Minuto Capicua. Faz um minuto de silêncio capicua por todos os Minutos Capicuas que não conseguiste contar. Repete com os teus colegas do escritório “Minuto Capicua”. Sublinha nos teus Relatórios todos os minutos Capicuas que encontrares. Abraça um estranho e diz-lhe Minuuuuuuuuuto Capicua. Vai até ao pé daquela gaja que gostas e com confiança sussurra-lhe: queres viver um Minuto Capicua comigo?
DECORA BEM: 0h00, 01h10, 02h20, 03h30, 04h40, 05h50, 10h01, 11h11, 12h21, 13h31, 14h41, 15h51, 20h02, 21h12, 22h22, 23h32….


JÁ DECORASTE? Então assim que acabares de ler este “post”, estás convidado a passar esta mensagem a todos. Força, Juntos conseguiremos festejar todos os Minutos Capicuas. Juntos vamos ficar contentes. Ridículos mas Felizes.
Tens mais ideias para festejar estes Minutos Capicuas, então reenvia-me para basbaque@portugalmail.pt, juntos poderemos tornar isto oficial. Amanhã não seremos só Portugueses a viver juntos o Minuto Capicua. Traduz este mail para inglês. Sim, também Ingleses, Escoceses, Galeses, Norte-Irlandeses, Irlandeses, Islandeses e aqueles habitantes esquisitos das Ilhas Faroé e da Ilha do Alberto João poderão festejar connosco, ao mesmíssimo tempo, este tão transcendente momento! Minuto Capicua Minuto Capicua Minuto Capicua Minuto Capicua Minuto Capicua. G.F.



P.S. Às 20 horas e 02 minutos do dia 20 de Fevereiro do ano 2002, 202 pessoas em Streymoy, Ilhas Faroé, testemunharam o Minuto Capicua mais bonito de sempre. Essas 202 pessoas que gritaram bem alto aos céus e aos mares, em português com sotaque dinamarquês: «A droga do dote é todo da gorda» nunca mais foram vistas. Diz-se que estão… “Perdidos”.
Este e outros mitos, gostava que fossem passados, se possível de geração em geração. Um dia gostava de ir a Tóquio e ouvir alguém falar-me desta história e de todo o Movimento Minuto Capicua. Já poderia adormecer com um sorriso nos lábios por volta da 1h e 10 minutos.


Quinta-feira, Abril 12, 2007

Atenção. 

«Camarão que dorme vira cocktail» ouvi algures, não me lembro quando. Mas acorda.

Posse Conjugada 



Agora vou esquecer o que sou. Quero saber o que tenho:


Tenho as mãos pequenas quando escrevo e quando não escrevo.
Tenho documentos que me provam que tenho altura,
que tenho pátria,
que ainda não tenho mulher
e que vou tendo quem me quis perto de mim.
Tenho vontade de aprender a tocar contra-baixo e depois ter de me esquecer de todos os acordes.
Tenho fome.
Tenho poucas vezes sede.
Tenho macacos no nariz.
Tenho ali coisas que me emprestaram e eu não sei de quem são.
Também tenho a ideia de que não quero morrer já.
Tenho o desejo de um dia ser velho e poder fingir que sou surdo para poder chatear toda a gente.
Tenho o gosto em fugir.

Tive de tomar decisões.
Tive de me despedir.
Tive de cantar para muita gente.
Tive de usar ténis de velcro.
Tive 5 , tive 6, tive 12, tive 16.
Também já tive 20 anos.
Tive crostas nos joelhos que rebentava para ver como era o sangue.
Tive-te a ti e nunca mais tive de te ter.
Tive febres.
Tive ressacas.
Tive muitas vezes de jogar à macaca com a solidão.
Tive de correr.
Tive de vir.

Tinha que só dormir.
Tinha que lavar.
Tinha uma camisola do Benfica com o patrocínio da Shell.
Tinha avôs.
Tinha que decorar a tabuada.
Tinha bichos-da-seda numa caixa de Le Cock Sportif.
Tinha todas as raparigas a gostar de mim.
Tinham amor por mim e mas eu tinha de continuar ali a brincar.

Fui tendo colecções.
Fui tendo paixões.
Fui tendo ilusões.
Fui tendo canções.
Fui tendo que fazer rimar obsessões.

Vou tendo caspa.
Vou tendo pé de pouco atleta.
Vou tendo apontamentos por ler.
Vou tendo relatórios por melhorar.
Vou tendo passe social.
Vou tendo perspectivas de novas memórias.
Vou tendo motivação para reaparecer.

Terei um carro que me leve a Bagdad em paz?
Terei amanhã alguém a dizer-me ao ouvido: “Avô, e quando foste vocalista de uma banda de rock em Itália?!”
Terei que usar óculos?
Terei de morrer demente?
Terei sempre estes dentes?
Terei aproveitado bem a última noite antes do genérico?

Tivesses sido tu.
Tivesse eu comprado um outro bilhete.

Teria hoje muito menos se não vos tivesse tido.
Teria que ouvir mais vezes a minha mãe.
Terias que viajar comigo mais além,
Teria Plutão sobrevivido.

Tivera eu não ter tido de ter perguntado “porquê?”
Tenho de me perguntar sempre porquê.

Tenho MP3. Tenho um Motorola, Tenho Zara. Tenho Pull and Bear. Tenho All Star. Tenho Timberland. Tenho H&M. Tenho DKNY. Tenho Boss. Tenho o cabelo despenteado. Tenho barba por fazer. Tenho olhos verdes salpicados de castanho. Tenho fotos em que estou bonito. Tenho raparigas que me desejam. Tenho perdigotos desfeitos no meu monitor. Tenho borbulhas, Tenho pêlos. Tenho barriga. Tenho vontade de cagar.

Tenho Carta e não conduzo. Tenho Cartão de Eleitor e voto mal. Tenho Cartão de sócio do Benfica e empato com o Beira-Mar.

Tenho uma Promessa, tenho uma Lei e tenho Princípios. Tenho cicatrizes. Tenho Palavra. Temos Movimento.

Tenho mochilas, tenho fechos e tenho gavetas. Tenho linhas e tenho contas. Tinha-te em linha de conta. Tenho Cartão de Crédito e tenho zeros. Tenho papéis. Muitos papéis. Tenho infinitos papéis. Tenho de ir ali rasgar poemas como se tivesse de rasgar mulheres. Tenho de gozar, tenho de possuir o mundo. Tenho de desfrutar. Tenho de te encontrar e tenho de te apanhar. Tenho raiva. Tenho calma. Tenho ¾ de alma.

Tenho tudo aquilo que a circunstancia ainda não me permitiu não ter.
Não tenho nada daquilo em que eu próprio não consegui permanecer.
Tenho dias em que tenho pouco pé mas tenho noites em que tenho o leme.
Tenho a sorte de poder escrever. Tenho este mar. Tenho esta terra. Tenho esta gente. Tenho companheiros. Tenho perdido e tenho vencido. Tenho que viver.


Tenho a ideia de que tenho o que tinha de ter. G.F.

Quarta-feira, Abril 11, 2007

conto trágico pós-moderno 


Era uma vez, há não muito muito tempo, umas palavras cruzadas. Cresciam na sua verticalidade e horizontalidade vocabular. Eram felizes.

Um dia, chegou o Sudoku e morreram. G.F.

genialidade 

No outro dia pensei: «será que sou mesmo um génio?». Então tive uma epifania e fiquei algo desalentado: eu nunca me vou conseguir meter dentro de uma lamparina. G.F.

Meu amor... 



Num dia dos namorados já ido, algum puto desconhecido decidiu ganhar coragem e escrever esta singela declaração de amor. Como todas as estórias de amor, esta também começa bem. G.F.

nove fora e nada 


Olha, queria dizer-te a ti (que me lês em nome de todos os anónimos que esperarão um dia por mim) que não fui chato. Queria dizer-te que nunca mais escrevi porque tive de ir ali fora só viver um bocadinho. Sabes, era Julho, não me apetecia estar sozinho aqui. Só que tens de compreender que Julho vestiu o Agosto com um bikini contrafeito em Xangai e eu só queria estar ali a esconder os paus e as pedras dos nossos futuros. Enterrá-los na areia antes que chegasse Setembro e eu me tornasse literalmente finalista. Já sabia que não ia gostar de acabar mais alguma coisa, nunca gostei, sempre fui adepto do Benfica e das reminiscências.

Por isso me ilumino sempre desse imenso que são os inícios. Percebes: eu não voltei cá porque apenas não tinha nada para começar. Agora sim pá. Agora tenho vontade de começar a contar-te o que eu tenho pensado enquanto estive longe. Agora estou motivado para te acordar e dizer o que me passou pela cabeça enquanto brincava com o que restava dos paus e das pedras que te escondi e andei a esconder das boas pessoas.

Sabes, eu pus a gente toda do bairro a dançar com um objecto feito de reles plástico e papel. E eu nem sei tocar nenhum instrumento! Era toda gente minha vizinha pá, e riam-se para mim. Estavam felizes os meus vizinhos anónimos. E havia também gajas giras se queres saber. Ainda não eram tão bonitas como as últimas que amei, mas pá, sorriram para mim. Quando é que foi a última vez que uma mulher ou um homem bonitos sorriram para ti? Não ficaste contente? Eu fiquei pá, fui o rei do mundo. E para comemorar reuni a minha côrte de amigos e fomos ali embargar umas obras e pôr os ucranianos a dançar, fui ali embargar uns clubes de strip e pôr umas eslovacas a cantar. Fomos roubar gravatas às lojas finas e pusemo-las em todos os animais que íamos encontrando. Ainda tive tempo para dar gelados a toda a gente. Pois é, também já quiseste ser o senhor dos gelados. Olha e havia pessoal esquisito que não gostava de chocolate. A esses, demos sadicamente sudokus sem solução…Ainda lá estes meses depois. Estão eles e está aquilo que eu te vou contar nos próximos antes de partir outra vez.

Estava-vos a contar que foi uma bela comemoração pá. Fui feliz e caí na areia alegre. Só que é sempre quando caio na areia feliz que ensimesmado choro. Talvez a areia esteja sempre à espera do sal. Talvez o sal regresse sempre quando descobre que a areia não é deserta. Mas não te preocupes que as minhas lágrimas são sempre das boas pá. São as lágrimas das partidas e das chegadas, são as lágrimas da bicicleta de Padova, são as lágrimas que se misturaram nos beijos dela, são as lágrimas que vou semeando por aqui nos próximos tempos quando te contar tudo o que eu imaginei enquanto estava ali, durante meses, a não querer crescer um bocadinho. Sim, não te preocupes que as minhas lágrimas são quase sempre das boas. Porque quando sabemos que podemos sempre voltar a viajar e a poder relatar as nossas viagens, as lágrimas são em grande parte e simplesmente: H2O tipo positivo. Sim H20 positivo. As tuas também costumam ser?

Não interessa. Este devaneio que agora tive carece de enorme cientificidade. E depois de ter ido ver a constituição química de uma lágrima no “Google” (além de isso ser per se deprimente) acho mesmo que foi um erro técnico inqualificável como me diriam no 12º ano. Mas olha, nunca pensaste em mandar à merda a Física e a Química? E também nunca pensaste em mandar à merda por alguns instantes o que tinhas a fazer para vires ler este blog? Também foi por essa tua vontade que eu voltei. Mesmo que só depois destes meses não consentidos de envelhecimento. Mesmo que só depois destes meses a embasbacar-me comigo, com os outros e com o futuro.

Hoje é dia 11 de Abril, foram 9 meses fora e nada. Aqui nada, mas lá fora, quase tudo.G.F.

Terça-feira, Julho 11, 2006

esclarecimento 



A quem chegou aqui pela primeira vez e se depara com palavras sobre futebol e depois mais à frente uma teoria sobre mulheres, não se preocupe, foi só uma coincidência, este blogue não é sempre assim, às vezes até é, diria mesmo, ligeiramente gay. Resistirei e tentarei não falar de carros nos próximos posts. Obrigado.
G.F.

campeões do mundo... 



«Se Grosso segna siamo Campioni del Mondo!!………GOOOOOOOOOOL!!!!ABBIAMO VIINTOOOO IL CAMPIONATO DEL MONDO» Ao mesmo tempo que escrevo este post, oiço emocionado a retransmissão radiofónica italiana online. Oiço emocionado e revoltado. Aquela taça e este mundo deviam ser nossos. Devia ser nosso o explodir de alegria de toda uma alma lusitana naquele último segundo eterno da confirmação…

Já estava a imaginar: exclusivos do Marquês de Pombal para a CNN; jornais em hebraico e árabe unidos na mesma manchete «Portugal, Campeão do Mundo»; os rednecks no interior dos Estados Unidos a descobrirem um novo país no mundo; os PALOPS totalmente em festa; os iranianos a gritar “Figoooo”; Pyongyang a querer dialogar só com diplomatas portugueses; o puto do sobrevivente do tsunami, a gabar-se aos amigos “já tive com eles pá”; Emigrantes orgulhosos e venerados, desde o Canadá à Patagónia, desde a Noruega à África do Sul, Macau à Austrália; a bandeira nacional em tudo o que é imprensa e aquele pequeno recanto, uma semana inteira de festejos e consumos capaz de reduzir o défice económico a zero. Sim, o tal Quinto Império.

Fico emocionado e frustrado porque eram os meus amigos espalhados por todo o mundo que deveriam estar naquele momento a enviar-me mensagens, a congratular-nos pelo feito histórico alcançado. E não ser eu a ler, nas mesmas respostas repetidas às mensagens transalpinas, um «Abbiamo vintoo» acompanhado de lágrimas felizes que eu invejavelmente as tanto desejei para aquela noite passada de noite de domingo de Verão. Afinal foram eles que ganharam. Afinal foram eles que passaram a noite bêbados de vinho e embriagados de amor a uma pátria tão menos alicerçada e unida que a nossa. Afinal foram os meus amigos padovanos festejando no Pratto della Valle que, presenciaram um momento que só o futebol de um Campeonato do Mundo pode oferecer como experiência de vida a um povo. Não me contento porque os céus de todos os cantos do mundo deveriam ser tricolores sim, mas das cores da bandeira portuguesa.

Num jogo de sorte não há injustiças creio. Há sim culpados. Porque para a vida e para a morte, para as coincidências ou para o azar sempre julguei que a condição humana tem sempre inerente uma necessidade, diria epistemológica, de encontrar réus. Sinto que tivemos um grande líder, um general que soube como ninguém motivar as suas tropas e levar-nos onde raramente tínhamos chegado. Alguém com muita fé. Mas na minha opinião foi também a fé que nos levou mais longe e foi, no limite, exclusivamente a fé que não facilitou o realizar do sonho. Passo a explicar:
Não queria aqui repetir as velhas frivolidades sobre a necessidade de espírito de equipa ter primazia sobre as individualidades. O que é certo é que tivemos os jogadores que, quer individualmente, quer colectivamente, melhor praticaram o futebol neste Alemanha 2006. Ou através da sua componente técnica, com a imaginação e magia de Figo e Ronaldo e Deco, ou delineando uma excelente táctica defensiva em que destaco Ricardo Carvalho, Costinha e Petit. Tínhamos talento, temos prestigio. Já possuíamos jogadores capazes de ganhar taças da Uefa e Ligas dos Campeões. Precisávamos de alguém que nos desse mais que competências técnico-tacticas. Alguém que nos fizesse acreditar que por sermos pequenos não poderíamos deixar de sonhar em conquistar. Foi isso que fizeram os Lusitanos ao inventar a guerrilha contra as sucessivas invasões romanas, foi isso que nos fez sermos Portugueses e não membros de uma comunidade autónoma de Espanha, foi isso que nos permitiu dar Novos Mundos ao mundo. Isso admiro em Felipe Scolari. Só isso. A verdade é que quando chegou a altura de arriscar, de ser frio e mudar a estratégia do jogo, de apostar numa nova forma de ataque eficaz, que é determinante no vencer das batalhas mais difíceis, o nosso general não arriscou. Teve fé que as coisas poderiam mudar. Arriscaria mesmo a dizer que acreditou que Nossa Senhora provesse o Postiga, em mais um momento raro na sua vida, de talento ou que Maria do Caravaggio conseguisse pôr o Pauleta a repetir o que fez contra Angolas, Luxemburgos, Lichensteins e Polónias. Isto é ter engenho para, num sistema de jogo que em nada beneficia a sua arte, mudar o rumo da História. Pois Nossa Senhora não é só de Fátima ou do Caravaggio. A acreditar que tenha aparecido, no mínimo Ela também é Notre Damme de Paris e de Lourdes. Cometeria pecado se dissesse que nesse estádio onde é a fé do público que faz ganhar um jogo onde existem postes, bolas com efeito, avaliação a olho humano, Deus teria graves problemas de finalização. Se de facto, no mesmo momento em que Scolari rezava por Ricardo (que é sem dúvida o melhor do mundo a defender penalties e já Brassard também o era, sem ajuda de bíblias) houve pelo menos um francês a rezar com mais convicção pelo Zidane, (ou um argelino a rezar mais ardentemente para outro destinatário) nunca vamos conseguir averiguar.

[Talvez a melhor forma cientifica de se perceber a vantagem da fé deveria consistir mesmo na organização campeonato do mundo e tirar as teimas entre ferrenhos Cristãos, Muçulmanos, Judeus, Budistas e Hindus – quem ganhasse estaria provadíssimo que teria uma entidade divina mais forte, no limite a única existente?. Enfim, a fé, tal como a humanidade, terá estes pormenores ridículos deliciosos que nos vão fazendo estar bem sobrevividos. Já me estou a afastar do ponto que queria esclarecer. ]

Então para tristeza de toda a pátria portuguesa, Zidane marcou. O talento de um génio ou Nossa Senhora que não quis dar a alegria a Portugal porque são insondáveis os desígnios de Deus? Será Thuran um dos melhores defesas do mundo, decisivo no mundial ganho pela França, ou quis Deus escrever direito por linhas tortas? Talvez se tivéssemos ganho, deixaríamos de acreditar só Nele como garantia de vitória em jogos desportivos para acreditar mais no potencial físico e psicológico dos atletas. Se tivéssemos sido campeões deixaríamos de viver pelo Fado e tornarmo-nos independentes do Destino mas isso seria perder um pouco da nossa identidade. Foi bem pensado Deus.
Para nos massacrar mais, Ricardo quase que defendia. E quase que poderíamos ter ido lá aguentar o resultado. E quase que Figo poderia ter empatado, ele que já marcou tantos golos de cabeça… E quase que Ronaldo poderia ter centrado numa jogada de mestre e ele próprio finalizar de cabeça, ultrapassando o golo mítico de Deus Maradona contra a Inglaterra. E quase que o árbitro também poderia ter tido fé e acreditado que os constantes mergulhos intencionais foram mesmo falta…

Pois... Só que naquele jogo não ganharam os peregrinos, a legião de bandeiras e correntes do amor e força. Naquele jogo não ganharam aqueles que mais precisavam e que mais pediram pelo milagre de um dia tão pequeninos serem enormes campeões do mundo. Naquele jogo, no jogo contra a Alemanha e na derrota francesa final não ganhou quem constantemente atribui as culpas das derrotas a agentes externos ou de quem diz que nunca deixam os pequenos chegar onde querem. Aí, ganhou quem foi mais eficaz. Neste aspecto, os italianos souberam faze-lo melhor que qualquer equipa do mundial. Sem primas donas e sem futebol espectáculo, mas com uma equipa e um país que também se uniu como nós. Uma outra pátria de gentes tão iguais a nós que, depois da bola de Grosso entrar na imortalidade, hoje acredita que os milagres podem tornar-se realidade. E tenho a certeza que o acredita com muito mais força que nós. Afinal são eles que o estão a viver.

No fim de contas, foi o Cannavaro que cumpriu a promessa de dormir no hotel com a taça entre ele e o seu filho de sete anos. Afinal fomos nós que voltámos aos nossos pequenos quotidianos mal saboreados. Afinal são eles a quem o sonho ainda dura, enquanto o sol do dia de hoje vai evaporando aos poucos o perfume de uma noite que será recordada durante gerações. Afinal... Deus: esquece as minhas críticas, esquece estas palavras, obrigado pelo talento que Tu deste ao Figo, ao Ronaldo e a todos os outros jogadores. Afinal Deus, ou Nossa Senhora da Fé do Monte Abraão: tratem só de fazer com que eu esteja cá nessa noite de Verão em que sentiremos o perfume de nos sentirmos existir maiores que o universo. G.F.


e se não tivesse sido só ilusão óptica?


Domingo, Julho 02, 2006

2 de Julho de 


No dia 2 de Julho de 2003 abriram-se pela primeira vez as portas deste Oráculo. Após três anos, duzentos e dezassete posts, vinte mil e quinhentos e oitenta e nove visitantes, tudo e nada o tempo mudou. G.F.


Terça-feira, Junho 27, 2006

Deus feito Mulher . 

Natalie Portman. Além de ter o Curso de Psicologia pela Universidade de Harvard, quando não está a fazer cinema é assistente de investigação nessa instituição. Fez musicais na Broadway quando tinha 13 anos. Trabalhou com Al Pacino, Robert De Niro, Susan Sarandon, George Lucas, Tim Burton, Woody Allen, entre outros. Cold Mountain, Garden State, Closer são alguns filmes em que participou. Recusou o papel de Julieta em Romeu e Julieta por ser muito mais nova que Leonardo Di Caprio. Sabe falar hebraico, francês, alemão e japonês. Participa como embaixadora numa organização que permite o crédito a mulheres africanas que tenham estabelecido o seu próprio negócio. Nasceu quase no mesmo dia que eu, com um ano de diferença. E depois é simplesmente assim...



A Soraia Chaves ontem beijou-me na boca depois do jogo! * 


Resultante de uma conversa de MSN e com a validade que esta possa manifestar, aqui exponho uma teoria reducionista sem qualquer literatura científica inerente, sem sequer ter pensado num único livro do curso. È uma teoria que não revela a minha própria categorização mas é baseada numa amostra de 7 ou 8 tipos, personagens alegóricas e representativas de cada tipo de homem, aliada a amostras retiradas de várias novelas da tarde, 12 ou 13 saídas à noite, muitas conversas de bica já bebida. È também mais uma a acrescentar ao vasto rol de teorias cor-de-rosa e discussões estéreis em que homens e mulheres se degladiam e onde se passa o tempo sem ter feito algo novo (às vezes não é para isso que serve um blogue?).

Teoria da Categorização Quadriárdica Masculina sobre o ser Feminino. Versão beta 1.0


Existem várias mulheres na vida de um homem. Exclui-se desde já todas as que são família. O indivíduo do sexo masculino conhece ao longo da vida um número de mulheres que tende para o infinito.
Categoriza então (com melhor ou pior precisão consoante a idade e desenvolvimento, variáveis não controladas neste estudo) cada mulher segundo quatro seguintes grandes categorias. Se já as conhece: percepciona-as assim e rege os seus relacionamentos com base nessas avaliações. Se ainda não as conhece bem: de certa forma profetiza (com base em instrumentos de análise masculinos extremamente precisos e instintivos não controlados por este estudo) que se possam também etiquetar em potencial da mesma forma.
As categorias não estão por qualquer ordem de importância e não estão exaustivamente definidas:


Método de Categorização:

A) - Amiga
Quem permite ter uma bela amizade entre sexos opostos. Com ela o homem pode falar de tudo: de sentimentos, de afectos, de segredos, das crises hormonais delas, de cosmética, culinária, dietas, sentido da vida. È ao ombro da Amiga que recorre para encontrar respostas aos problemas com mulheres que se julgavam ser do tipo B) e também para dicas com mulheres do tipo C). Com a Amiga, o homem ri-se sem qualquer outro tipo de pretensão, é ela quem lhe faz recordar infâncias inocentes e despreocupadas. É a irmã mais velha ou mais nova que se pode escolher. O sexo com ela nunca está no horizonte de ambos, seria uma espécie de incesto homossexual, já que ela é quase considerada um “compinxa”. Existem uma ou duas amigas assim e mantêm-se ao longo da vida.

B) - Mulher da sua Vida
A que lhe permite a loucura do desejo mais contra -gravitacional no espaço masculino: o desejo de casar. De prender-se, de sexo monogâmico, viver só para e com ela, pequenos-almoços na cama, altruísmo da conta bancária pessoal, o sonho do grande romance a dois, a heroína que poderia ser sua avó querida, sua filha princesinha ou freudianamente sua mãe.Este tipo de mulheres, o homem percepciona em média 2, quase 3 vezes na sua vida inteira e não quer dizer que a mulher com quem de facto se casa esteja dentro desta categoria.

C) - Mandava-lhe umas valentes pinadas!
Este tipo de mulheres é o que o nome indica. Algumas susceptíveis de maior vontade que outras. Este tipo de mulheres o homem percepciona numa razão de 9 em cada 10 que conhece, sendo que quatro dessas nove se devem ao efeito do álcool.

D) Indiferente – Contrário de A) e especialmente Contrário de C)
Este tipo de mulher não é, nem se afigura como amiga, não é a mulher de uma Vida e decididamente não desperta qualquer centímetro de interesse sexual e intelectual.


Hipóteses:

- A) nunca engloba C). Se englobar C) é o caos relacional!: ou poderá passar a B) ou em
casos mais graves passar a D).

- B) engloba em quase tudo A) e quase sempre C) (excepto em jogos de futebol importantes e fases menstruais). Se B) deixar de ser C) poderá passar ou não a A). Se B) deixar completamente de ser A) poderá em alguns casos de recaída ser só C).

- C) poderá passar a A) se for uma C) verdadeiramente C).

- D) nunca passará a qualquer outro tipo, a não ser em caso de grande catástrofe mundial, em que A), B) ou C) deixem simplesmente de existir.

Fontes, 2006


A todos o que lerem isto, especialmente os homens, tentem refutar esta teoria ou elas chamar-nos-ão invariavelmente de básicos. Por outro lado tentem corrobora-la para nós orgulhosamente poderemos continuar a dizer que não temos complexificações, somos saudavelmente simples. Portanto: comentários, upgradings, discussões e conclusões são bem-vindos. O tempo considerável que perdi a escrever isto é assim recompensado pelo vosso usado nesta leitura. G.F.

*o título deste post surgiu como garantia da leitura integral por parte do visitante pouco precavido do site. Além disso, o sitemeeter também agradece. Fazendo uma pequena ponte: Soraia Chaves seria uma C), Natalie Portman uma B), Whoopi Goldberg uma A) e José Cid uma D) imutável.

Segunda-feira, Junho 19, 2006

México 86 


Penso que foi numa exposição de Ciência em Valência que vi os relatos de crianças a quem tinham perguntado qual a sua primeira memória. Muitas eram induzidas por aquilo que viram em fotos ou pelo que os pais lhe contaram. Eu lembro-me de ter sete ou oito anos e antes de adormecer tentar fazer um esforço para me lembrar, em retrospectiva, de coisas que tivessem acontecido nos últimos anos. Intrigava-me não me lembrar de quando nasci. Talvez tivesse ido longe se não adormecesse nesses devaneios. Sempre tentei auto controlar cronologicamente a minha identidade e talvez o blogue acabe por ser, também, uma ferramenta para isso.

As minhas recordações mais antigas são as relacionadas com um rádio azul que tinha a que chamava “a minha muca” (era difícil dizer música com dois ou três anos). Às vezes sinto que me lembro perfeitamente de viagens com os meus pais, de brinquedos que tive, de pessoas da ama onde andei antes de entrar para o colégio. Acreditando que a nossa identidade é em grande parte memória, eu sei mesmo que existo desde 1986 e não desde 1982. Porque me lembro de ir buscar a minha irmã à maternidade e de colocar as minhas mãos à frente da cara dela enquanto chorava, para lhe dizer “magia magia magia” até a mana adormecer.

Mas também me lembro do Mundial de 1986. Eu até pensava que me lembrava pouco, talvez de ver um jogo de Portugal na televisão e da mascote de alguém com um sombrero. Só que a minha mãe hoje perguntou-me se eu ainda sabia a música do “unidos por un bálon” que, por essa altura, passava os dias aqui a cantar pelos, naquele tempo infinitos, corredores de casa. «Mexico otenta e seis, méxico otenta e seis uniiiiiiiidos por un báloooooon!!» fez-me sorrir ao canta-la e ao saber que já tenho memórias com duas décadas de idade. G.F.

Sexta-feira, Junho 02, 2006

«too weird to live, too rare to die» 

Se és ou te sentes estranho, não te preocupes. Sim, não se vive bem sendo estranho. Mas ao mesmo tempo que és demasiado estranho para poderes viver, tornas-te demasiado raro para poder morrer. G.F.




Quinta-feira, Junho 01, 2006

fama e anonimato 

Acabo de ler uma entrevista de Eddie Vedder ao jornal italiano La Repubblicca. O líder da minha banda preferida (e da dos que estarão também lá comigo dia quatro de Setembro) a certa altura aborda a questão “na mesma linha das vossas escolhas anticomerciais, o não aparecer em videoclips”, Vedder responde: «Em todos estes anos seguimos uma certa invisibilidade, desde os tempos do primeiro álbum, Ten, quando nem sequer queríamos faze-los, os videoclips. A um certo ponto, dás-te conta que ganhas uma certa quantidade de dinheiro mas uma grande parte desse dinheiro também vai para gente que ninguém conhece, que pode viver tranquilamente sem ser barrada nas ruas, sem ser assediada por gente fanática. O nosso objectivo não é a fama, é tocarmos como banda. Mais que isso, como escritor de textos para mim é verdadeiramente uma grande coisa não ser reconhecido: posso manter o anonimato, observar e não ser observado.»

1 de Junho de 1982 


Dia Mundial do Cigano, primeiro dia da época balnear e dia de algum santo qualquer que agora não me recordo. Acima de tudo Dia Mundial dos miúdos e das míudas. Dia Mundial dos putos.

Eu hoje acordei com mais um ano, embora padeça sempre da síndrome de Peter Pan. Não gosto da expressão "jovem adulto". Vou sendo um puto de 24 anos.

Obrigado ao médico que fez com que eu "nascesse" alguns minutos depois da meia noite para que muita gente se pudesse lembrar da data do meu aniversário, obrigado às pessoas que têm sido personagens principais, secundárias ou figurantes destes 8760 e tal dias de vida e como já o disse, a 1 de Junho de 2004, obrigado aos meus pais que um dia se lembraram de me fazer existir. G.F.

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