domingo, julho 13, 2003

Quando entenderão este mundo, os "Padrinhos"?


Depois de Berlusconi ter chamado "Kapo" ao eurodeputado alemão Schultz, chega uma notícia que revela uma vez mais a brilhante veia diplomática italiana. Num artigo de jornal, Stefano Stefani escreveu que os alemães são «louros uniformes e super-nacionalistas, que não perdem uma oportunidade de serem desavergonhados e de invadir com grande alarido as praias italianas». Embasbaquei-me. Stefani não é um comediante italiano, Stefani não é caricaturista, Stefano Stefani não é o Vicktor Vicktor transalpino. Stefani é simplesmente o Secretário de estado do turismo italiano. Podemos admitir que os alemães provocam alarido, podemos dizer que as alemãs são desavergonhadas. (pelo menos algumas das que passam cá férias) Mas a diferença é essa, nós podemos, porque somos meros anónimos envoltos na enorme diversidade de povos que habitam este planeta. Nós podemos, porque não temos responsabilidades, a não ser a de perceber que as generalizações conduzem às certezas que conduzem: nenhumas.

Todos os povos têm as suas particularidades e o estériótipo, penso eu, é inerente à condição humana. Muitos de nós brinca com tal facto e mais que isso, brinca também com os nossos maneirismos, as nossas típicas catalogações do "Tuga". Nós podemos ofender q.b., gozar, generalizar, mas um S.E. do Turismo não pode. Ainda por cima pertencente a um partido xenófobo da coligação Forza Italia. Isto sim torna as coisas preocupantes. Não falo de repercussões turísticas, mas sim do mau estar gerado entre os dois povos. Tudo graças a algumas palavras de pessoas que, percebendo a importância que têm, as utilizam mesmo com esse sentido: o de criar quezílias. Pelo menos eu não acredito em irresponsabilidades a este nível de diálogo.

Triste. Demasiado triste para se acreditar. Chegar ao século XXI e haver assim hOMENS. Com h minúsculo, bem minúsculo, que teimam em regredir. Numa Europa que se quer unida, num mundo que se quer global, de cidadãos à escala planetária, num mundo em que se descobriu que somos todos uma só raça, mesmo genoma, mesma génese. È triste chegar a 2003 e pensar nessa Máfia, nessa gentalha que povoa alguns dos corredores do poder político, se pauta pela ambição e conceptualiza a palavra tolerância dependentemente das negociações favoráveis ou não.

Resta-me entristecer e arranjar boas lembranças nas várias comunidades de estudantes de “Erasmus” espalhadas pelo Velho Continente, em que Italianos e Alemães se abraçam, choram, se confiam, se amam. Resta-me parar para pensar nesta Humanidade e relembrar as palavras de Juca Sabão, através de Mia Couto. Talvez quem sabe, os "Padrinhos", um dia, entenderão as palavras vindas desse sábio e paradisíaco Moçambique: «ergam nos céus as bandeiras, plantem na terra as fronteiras, mas no mundo só existem duas Nações, a dos Vivos e a dos Mortos». G.F.C.

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