sexta-feira, janeiro 24, 2014

Deixando o Pago



Deixando o Pago

Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo,
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão,
Troquei as rédeas de mão,
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão.

E a trotezito no mais,
Fui aumentando a distância
Deixando o rancho da infância
Coberto pela neblina;
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china.

Sempre gostei da morena,
É minha cor predileta,
Da carreira em cancha reta,
Dum truco numa carona,
Dum churrasco de mamona,
Na sombra do arvoredo,
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona.

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor,
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar,
Tive ganas de chorar
Ao ver o meu rancho tapera.

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo,
Anunciando a madrugada,
Dormir na beira da estrada
Num sono longo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada.

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho,
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada;
Era linda a madrugada,
A estrla d'alva saía
No rastro das três marias,
Na volta grande da estrada.

Era um baile - um casamento
Quem sabe algum batizado,
Eu não era convidado,
Mas tava ali de cruzada,
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago,
Cachaça pra tomar um trago,
Carpeta pra uma carteada.

Falam muito no destino,
Até nem sei se acredito,
Eu fui criado solito,
Mas sempre bem prevenido,
índio do queixo torcido,
Que se amansou na experiência.
Eu vou voltar pra querência,
Lugar onde fui parido. 

João da Cunha Vargas, Poeta gaúcho do início do século passado

avós em Kiev


quinta-feira, janeiro 23, 2014

Do tempo em que éramos homens


Um tempo houve em que fomos homens. Fosse pelo fogo debaixo de panos-tenda em noites tempestuosas ou as bolhas das topografias do nosso país interior. Fosse por quem nos guiava pelos nós-de-porco, fosse pelos refugados a cheirar a detergente, fosse pelas varas serradas a suor, fosse pelos DireStraits na carrinha velha. Fosse talvez sobretudo por não termos nem paredes nem tectos, termos connosco o frio, o cansaço, umas vezes o medo, muitas vezes firmamentos. Sempre barbas de três semanas mal semeadas.
Nessa altura em que o Umbelino era um selvagem os absides ainda não estavam em vias de extinção. Talvez Maria Madalena Bento Maurício fosse viva e ainda havia dois ou três de nós que comungavam. Nessa altura nós éramos homens. Crescíamos assim, a cada semana, a cada reunião no canto, a cada quilómetro sob um nosso grande sol, a cada galgada da Calçada do Preto.

 Somos porventura homens somente quando estamos a crescer e o percebemos. Seja para que direcção for. Seja em que idade for. Assim pensando, acho que aquela foi a nossa idade de sermos homens. Aquela foi também a nossa ideia de sermos homens. Controlarmos com o mesmo poder quer a natureza quer a condição de se ser sapiens duas vezes. Tão fácil como domesticar uma labareda e amansar Deus numa canção dos Led Zeppelin. Nesse tempo em que tomávamos banhos invernais no aqueduto a Fonteireira ainda não estava em vias de extinção. Talvez o Horácio ainda tivesse dentes e ainda havia um ou dois de nós que não sabia o que era um primeiro grande amor. Nessa altura em que era delicioso um frango mal churrascado não precisávamos de quase nada para sermos felizes. Pedaços do mato e ferramentas inventadas há milhares de anos por outros também homens. O suficiente para uma mochila. Somente o necessário para compor aqueles extraordinários momentos em que sentimos que somos adultos aos 15 anos. Sim, sentíamo-nos adultos e isso era o melhor do nosso adolescer. Então éramos homens e acreditávamos nisso. Fossem as brasas do fim, fosse a lama do princípio, fossem os gritos dos jogos nocturnos, fosse a vitória ou a desventura: a nossa melhor juventude de homens era ali. Naquele campo do Vale Escuro, na podridão daquele sisal de equipa ou na placa que indicava o final de mais uma aldeia. Mas não teremos sido também homens enquanto passávamos a mão pelos calos cicatrizados pelos machados, ou nas boleias da camioneta de caixa-aberta que nos resgatou para o Algar do Carvão? Ou no perfume da terra molhada na alvorada de mais um dia?

Preparávamo-nos para sermos melhores gentes. Guias, sobretudo o Gil, quem mais me ensinou e que deixou esta vida tão cedo, prepararam-me para ser melhor com o seu exemplo. Ele foi sempre Homem. Hoje muitos de nós conseguimos, outros (se calhar mais) mentimo-nos disso. Brincamos a isso trocando de fardas. Bajulando aplicações , patrões e orações que nos dão motivações. Parando de cantar enquanto caminhamos. Tirando as barbas e as guadelhas para deixar crescer mantras organizacionais. Competindo por um punhado de jantares no restaurante-que-faz-aquela-merda-gourmet-do-Sri-Lanka e ultrapassando pela direita. Esquecendo-nos de ser gentis com a senhora de meia idade que vive dois terços da sua vida diária a passar códigos de barras e a olhar para um tapete rolante. Cessando cidadanias, aumentando as fotos a nós próprios. Desdenhando qualquer ideia que tenha o mínimo travo a utopia, desacreditando que é possível fazer qualquer coisa para que isto fique mesmo melhor do que aquilo que encontrámos. E no fim, fugindo até da morte e do mistério da vida. Escapando das leituras de livros partilhadas ou do discutir em grupo cheirando-nos a fumo de eucalipto. Como se pensar fosse sempre mau e o querer saber mais sobre quem somos ser associado a um vírus pernicioso. Como se passear a pé por uma terra estranha fosse assustador e saudável sim fosse viver um fim de semana maratoneando uma série sobre psicopatas nova-iorquinos.
Existe agora um tempo em que brincamos aos episódios, recalcamos ambições de quando éramos putos, ganhando medo ao ridículo da experimentação, da constipação, da infantilização, da cicatrização e da permeabilização. Metamorfoseando-nos em animais. Esquecendo-nos de despedir todos os dias de quem gostamos, e recolhendo-nos  sem saber que gente fomos hoje, que homens novos podemos  ser amanhã.  E dizem-me que as probabilidades científicas de rejuvenescermos são mínimas. Se são, encontremo-las fora da replicabilidade das generalizações: façamos discursos como o chefes dos piratas no “Peter Pan” quando alguém fizer um brinde; usemos bigodes falsos quando formos ao pingo doce; peçamos boleia ao que nos for estrangeiro ou cantemos todos juntos no carro uma canção quando estivermos a vir da Arrifana ou a pé quando estivermos mesmo a chegar ao Cercal. Nascerão filhos disto tudo: Marias, Sebastiões, Letícias, Marianas, Guilhermes e Gabrielas e o teu bebé também.

 Regressemos pois ao tempo em que éramos homens.

Gonçalo Fontes

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Pré-ferir.

Mais tarde do que cedo reaparece na tua mesa de cabeceira uma folha desbranqueada que caiu de uma das estantes. Esse quadrilátero traz algumas ideias caligrafadas a carvão e agora ressuscitadas. Antes dizer algumas tiranias do dever : “ ler mais”, “correr mais”(riscada) “correr ”, “comer menos” (mal apagada), “comer melhor ”, “agradecer”, “dizer que os amo” (sublinhada), “fazê-la feliz”, “acordar relativamente cedo”, “aparar a barba”, “permanecer não mais que o tempo suficiente em lugares desoladores”, “voltar a marcar golos”, “esquecer os problemas dos outros”, “encontrar soluções para ti”, “poupar dinheiro para hipotética viagem a Marte”, “gastar menos” (tracinho me acrescentado), “cortar as unhas” “afiar o…. (imperceptível), “jogar à cabra cega sem ser mais um bullie que escarniza a cabra”, “dormir mais uma vez ao relento no Prato della Valle”, “dormir mais uma vez na cama do meu quarto de sempre”, “procurar o cartão de sócio”, “fazer menos associações livres de ideias”, “visitar a minha Avó” (tinta esbatida, molhada), “voltar a rir”, “dizer basta”, “prolongares-te no que é bom”, “atestar o carro”, “esvaziar o caixote-anão de lixo que está no quarto”,” dançar longe”, “dançar perto”, “moderar as boas expressões”, “poupar para presentes das bodas”, “desejar casar”, “navegar só”, “vice-versa", "embasbacar-me". (a caneta de filtro vermelha molin)

Mais cedo do que tarde tentas compreender estas listas, quem as fez durante o sono, porque vem uma atrás da outra, porque preferiste escolhê-las. Puta da lógica sempre querer promiscuir-se entre os honestos senhores caos da bela mente. Claro que foste tu que as escreveste mas a amnésia torna tudo  mítico. Quem te narra a lista sebastianista torna-se um ente fabuloso em discurso voz-off cavernoso de um vulgar trailer de Hollywood. Vem de capa, emergindo de um smog snob por ti plantado. Só que ninguém é fabuloso, nem as raposas, nem os corvos nem tampouco La Fontaine. Esta e outras listas são só, serão sempre apenas, papeis. Vocábulos-gatilhos, enquanto continuares a preferir não as disparar para ti ou para o pequeno mundo.


Preferiste quase sempre estar só ali em romarias industrializadas. E preferiste desaparecer em combates de erotismo plastificado, preferiste ancorar-te a um punhado de boas mentiras bem cerzidas sobre aquilo que te é tradicional e seguro. Preferiste ser a Suíça da Grande Guerra do teu coração mondado. Tudo isso foi preferires não o fazer. E não precisas, não tens de preferir isso. Podes sempre escolher nem chegares a preferir listas. Ir logo aos checkouts. Ir ao impulso das outras praças, outras vidas, outros lábios, outros vinhos, outros deuses desalmados. Podes descalçar à socapa os Loubutin à  Morte, desafinar os seus fados. Dançar o Tango a um, a três, a mil. E se te deixares incompreender todas aquelas coisas estranhas cozinhadas numa panela de pressão a pavor e te imaginares a terminar a tarde como um poema? Adormeceres sem listas. Adormeceres desalistado de todos os exércitos amorais que te esticam a corda. Sem escreveres mais. Seres só eu e eu ser tu, só bonitos. Nem mais cedo, nem mais tarde. Sem precisarmos de preferências, de nos pré-ferirmos a todos?

Gonçalo Fontes

terça-feira, dezembro 31, 2013

o único post de 2013

       
          No fim das contas de 2013, mesmo à beirinha de fechar a contabilidade do projecto onde sou coordenador apercebi-me de que durante todo este ano não publiquei um único texto. Atravessei então (de carro e com o comprimento de tempo da Ponte-Sobre-o-Tejo, sentido sul-norte) toda bipolaridade que caracterizou o meu ano. Não ter escrito nada pela primeira vez revela o muito do mau mas também um outro tanto de bom que me fez deixar de ter qualquer vontade de começar fosse que frase fosse. Não escrevi nada e este post apenas safa uma estatística futura, não tapa o deserto. E porque é de futuro que se fazem os primeiros e últimos posts  do mês, do dia, do treze que foi este ano, deixo aqui um abraço para todos os que me leram durante estes dez anos. Outro aos que trabalharam comigo durante os últimos sete e com quem perdi o contacto por ser ou um tipo solitário ou parvo. Outro aos que partilharam comigo o Ser escuteiro nos últimos dezasseis anos e com quem tenho tantas saudades de acampar sem ter de ser chefe de nada. Um outro aos meus  camaradas de armas de Alvalade  e da Luz (se um dia tivermos que viver nas Antas, bela nota biográfica) aos quais se juntam os que  partilham o Bairro, a Rua do Alecrim, o Jamaica e outros lugares de distintos copos. Outros tantos aos que partilharam comigo as suas vidas e sobretudo um abraço e uma palavra para ti que partilhaste um nosso amor e a quem no final das contas deste 2013 acabei por magoar sem nunca o ter querido.

                 Perder mais do que ganhei, neste balancete final, só me faz pensar que o saldo de dois mil e treze pode ser um único apenas: deixar na outra margem as contas e trazer de volta as palavras. Para o que quer que seja que eu tenha para dizer ou para deixar, seja de facto concretizado e haja mais história das nossas estórias, tuas ou de velhinhas testemunhas de jeová com quem tomei pequenos-almoços bíblicos.
                Demorei  quinze minutos a escrever isto, estão à minha espera para irmos jantar e fazer o que se faz numa passagem de mais um ano. Menti, disse que estava a tratar de contas. Vendo bem não menti, estava a acertá-las de outra forma. Para que fiquem mesmo saldadas só me falta dizer aos meus pais que tenho um blogue há dez anos e que gostava de continuar a escrever e que gostava eles lessem porque gosto deles sempre só que tristemente, nunca lhes digo.

                «Ora podem querer que eu continuo a agradecer a vossa bondade em me auxiliarem» nesta vida tão bonita, nas ideias, nos gestos, no que vamos sendo nestas mutantes décadas do novo milénio.  Feliz final de 2013, até amanhã. G.F

terça-feira, setembro 18, 2012

El Derecho al Delirio


Sobre os tempos que passam, não tenho mais nada de importante ou bonito a dizer que citar este poeta:

«VAMOS A DELIRAR UN RATITO.
¿Qué tal si deliramos un ratito..?
¿Qué tal si clavamos los ojos más allá de la infamia..Para adivinar otro mundo posible..?

El aire estará limpio de todo veneno que no provenga de los miedos humanos y de las humanas pasiones.
En las calles, los automóviles serán aplastados por los perros…
La gente no será manejada por el automóvil, ni programada por el ordenador  ni será comprada por el supermercado ni será tampoco mirada por el televisor…El televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia y será tratado como la plancha o el lavarropas…
Se incorporará a los códigos penales el Delito de Estupidez, que cometen los que viven por ganar o por tener, en vez de vivir por vivir nomás…Como canta el pájaro sin saber que canta..O como juega  el niño..Sin saber que juega...
En ningún país se irán presos los muchachos que no quieran cumplir el Servicio Militar, sino aquellos que quieran cumplirlo…Nadie vivirá para trabajar..Pero todos trabajaremos para  vivir…
Los economistas no llamaran “Nivel de Vida” al nivel de consumo, ni llamarán “Calidad de Vida” a la cantidad de cosas…
Los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas..Los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos..
Los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas…
La Solemnidad:  Se dejará de creer que es una virtud.
Y nadie..Nadie..Tomará en serio a Nadie..Que no sea capaz de tomarse el pelo...
La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes.
Y ni por defunción ni por fortuna se convertirá al canalla en virtuoso caballero.
La comida no será una mercancía ni la comunicación un negocio, porque la comida y la comunicación son derechos humanos. Nadie morirá de hambre porque nadie morirá de indigestión…
Los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura..Porque no habrá niños de la calle
Los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero, porque no habrá niños ricos..La educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla y la policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla...
La Justicia y La libertad..Hermanas siamesas..Condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse ..Bien pegaditas..Espalda contra espalda
En Argentina..Las madres locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental, porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.
La Santa Madre Iglesia corregirá algunas erratas  de Las Tablas de Moisés y el sexto mandamiento obligará a festejar el cuerpo.
La Iglesia también dictará otro mandamiento que se le había olvidado a Dios : “Amarás a la Naturaleza, De la que formas parte”.
Serán reforestados los desiertos del mundo..y los desiertos del alma.
Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados, porque ellos se desesperaron de tanto esperar... y se perdieron de tanto buscar
Seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de belleza y de todos los que tengan voluntad de justicia…Hayan nacido cuando hayan nacido y hayan vivido adonde hayan vivido, sin que importen ni un poquito las fronteras del mapa y del tiempo…
Seremos Imperfectos..Porque la perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los Dioses…Pero en este mundo...

En este mundo chambón y jodido seremos capaces de vivir cada día como si fuera el primero y de vivir cada noche como si fuera la última...» Eduardo Galeano

segunda-feira, junho 04, 2012

golos limpos


               Estou a vê-los a todos. São sete e não têm mais que 12 anos. Acabaram de assaltar os putos de um bairro rival. Estão em tronco nu, trazem turbantes improvisados do Liverpool , do Barcelona e do Benfica. Estes marajás de palmo e meio soltam gargalhadas. O mais alto vai à frente, esforçado e de olhar perpendicular ao asfalto onde quase deslizam ao marchar vagarosamente com os seus nikes e adidas esburacados nas biqueiras de tantas bujas. Um segundo garoto segura uma beata mal fumada com a mão suja direita. Na esquerda finge suportar, tal como os outros o produto da gatunagem juvenil desta tarde de sol junino. Ao longe, consigo ouvir-lhes os risos, “os foda-se” e as preocupações. O ruivo das favolas diz “que isto ainda vai dar merda”. Trazem o seu  furto aos ombros estes peregrinos adolescentes, gatunos em procissão estival. Cruzam os prédios de subúrbio arruinado e às janelas há aprovações anciãs em sorrisos desdentados. Cheiram a orgulho, o seu andor é mais importante que qualquer taça do mundo. O seu crime o mais desculpável. Não cantam mas um dos telemóveis solta um kuduro chinês. O mais pequeno, que nem chega onde os outros carregam, improvisa uma dança, celebração ao troféu roubado, trocando os olhos à vizinha do quinto andar. O Sr. Albino pergunta se precisam de ajuda. Hoje não querem  nenhuma. Têm tudo o que precisam.
                Estou a vê-los aos sete, ao longe, à esquerda desta avenida sem nome de ninguém famoso. Ainda oiço a sua algazarra, mas já não os distingo. Não sei se são uma massa humana mascarada de formigas ou metamorfose de lagartas locomotivas em crianças de rua. Sete reguilas bons ladrões num final de tarde de bairro, de  “u” em ferro às costas, planando na ladeira dos caixotes vandalizados e dos sofás vagabundos sem dono. Sinto que o ruivo das favolas tem razão mas, por algumas horas, no ringue improvisado do nosso bairro, ninguém vai discutir se a bola bateria no poste ou não. Vão ser apontados golos antológicos, inimputáveis e legais e que o dono da bola não poderá mesquinhamente invalidar. 
              Sim puto, pode haver recargas e represálias da equipa visitada. Prolongamentos - vendeta não desejados. Mas essa baliza roubada e pesada que vocês trazem aos ombros já é uma das vossas histórias de vida comum e essa alegria nestes inícios de noite quente de verão, essa memória de alegria meus putos, já ninguém vos pode ilegalizar. Gonçalo Fontes

segunda-feira, maio 28, 2012

15 mais 15



              Anunciei que voltava em breve e passaram quase dez meses. Nunca quis encerrar este espaço pois sempre achei que numa hora como a hora de hoje, eu ia ter necessidade de voltar a mostrar alguém  algumas  novas imagens escritas. Nestes quase nove anos de blogue escrevi muito pouco. O tempo completamente livre que tinha para o fazer usei-o para dormir mais uns minutos ou especar-me perante este rectángulo em branco sem querer exibir nada a ninguém. Nesses tempos, o Documento1 de word foi apenas página anónima sem salvação. Muitas foram as vezes que, prestes a salvar alguma coisa, decidi apagar tudo.
                Escrever exige disciplina como uma vez me respondeu José Luís Peixoto. E eu só sei ter disciplina para aquilo que devo fazer e não para o que quero fazer. Acreditem, eu quis e quero muitas vezes fazê-lo, todavia, nesses entretantos, as palavras não serviam e as histórias que tinha para relatar não eram para te contar e nem tão pouco tinham qualquer necessidade de serem resgatadas. Em tempo de sequestro e pouca posteridade eu envelheci e envelheci porque os outros à minha volta também não continuámos novos. Porém, em todas as partidas, nunca voltei de mãos vazias. Por vezes voltei com o coração mondado, mas continuei a viajar e a ser, de quando a quando, porque não, feliz. Este blogue foi a minha forma de partilhar a minha saudável solidão. Dizem-me que eu fujo mas eu não concordo. Dizem-me que eu me perco mas eu não posso aceitar completamente. Dizem-me que eu devia crescer e aí sim, só que eu não sei ainda como.
           Na sexta feira faço trinta anos e ainda não os sinto. Entre copos, cidades e mulheres, sinto que vivi 60 anos mas ao mesmo tempo assusta-me aceitar que já não tenho 15. É –me fascinantemente inacreditável saber que sou psicólogo, que assino recibos de ordenado, que oriento estágios, que supostamente sou um cidadão idóneo e ajudo na protecção dos direitos das crianças e que termino e-mails para adultos rotineiramente com “os melhores cumprimentos”. Logo eu, que não tão poucas são as vezes, sonho que recebo uma carta da faculdade a dizer “Gonçalo, afinal você não acabou o curso, apresente-se na secretaria com carácter de urgência”. Eu, que sinto ter em mim cem mil mundos urgentes por mapear, vejo-me ter que responder com confiança sobre as coordenadas da geografia dos outros. Eu, que falo sobre as relações desses outros com laivos empírico-académicos e mais um terço de bitaites testados com casais alheios e, no fim dos cabos, estou solteiro há talvez quatro anos e já não me lembro da maravilha do amor feito entre nós. Eu que pertenço a Ordens e a Comissões, e vou a Formações e transmito opiniões e elaboro Relatórios de Avaliações mas que, noves fora, só queria estar ali com os putos a jogar 5 para 5 entre balizas feitas de mochilas monte-campo.
                Não foi assim há tantas centenas de dias que eu cantava numa banda de rock, vivia de bicicleta a 45 minutos de Veneza e não sabia o que eram categorias profissionais, cronogramas e amortizações. Não foi há mais de uma década em que nos sentávamos na rádio do bar da faculdade a tecer comentários sobre as mamas bonitas de todas elas, seleccionadas do 1º ao 5º ano. 
             No final da semana eu terei trinta anos. Estou mais pesado, ainda vou tendo cabelo. Não posso cultivar barbas de um mês e despentear-me com propósito. Tenho saudades de acampar na Fonteireira. Tenho saudades dessas fogueiras vividas com amigos a descobrir o mundo e saber que estávamos a ganhar super poderes sócio-espirituais. Esse fogo, essas bicicletas, esses gargalhadas, essas caminhadas, essa rotina, essa fúria dos momentos de paz, ecoam nestes tempos mais lentos e saborosos. Esses episódios retinam nestes finais de vinte anos de combates sem guerras de grande violência.
                 Continuo a brincar, a mascarar-me a inventar novas vidas. Faço Teatros. Mora em mim tanta gente fictícia e tanto de vocês que juntos devemos ter mais de dez mil anos. Continuo a apaixonar-me por coisas que me são estrangeiras e continuo a querer só dizer-te uma piada,  fazer-te rir, para que não me tenhas mais fronteiras. Ainda não sei dizer imenso, por isso é bué fixe saber que este meu mundo tem tantos espelhos-fantasmas-benignos de mim mesmo. Ora derivando eles pelas subidas do Monte Abraão, ora desviando-se pelas  arcadas de Pádova, ora fazendo-se sentir nas gargalhadas de Roterdão, na doçura dos olhar de Liubliana, nas despedidas das estações de Varsóvia  ou na multidão ensimesmada dos ferries do Corno de Ouro. Sem esses ecos, eu não teria sexta-feira estes trinta anos. E sem estas palavras ditas eu seria apenas mais um sem história. Sem palavras escritas hoje, quem serei eu daqui a quarenta e cinco vírgula quarenta e nove anos? Além de morto segundo o INE e a sua esperança média, não seria ninguém. Mesmo vivo preciso destas palavras ditas e reescritas... Preciso mais que isso. Preciso que me oiças e leias. Porque não bastam só as palavras escritas. Mesmo que um dia inventem borrachas com a parte azul que realmente apague a tinta de todas as bic sem sequer romper  as folhas dos nossos cadernos pretos com recorte dos Nirvana, tu leste-me e sabes quem fui. Mesmo que todos os hackers malévolos da facção ignorante do mundo se reúna e acabe de vez com os processadores de texto e as bases de dados de blogues, tu lês-te me e sabes quem sou. Mesmo que todos os incêndios da piromania  estival  queimem estas folhas brancas de passado frio, tu leste-me e podes amanhã contar quem eu poderia ter sido. Mesmo que um dia não existam mais registos meus, que não conste do ficheiro de qualquer burocrata ou que os filhos da mãe dos Alzheimers me sodomizem a mente, tu leste-me e eu posso voltar outra vez a ter 15,apaixonantes, anos. Gonçalo Fontes

quarta-feira, agosto 24, 2011

aeroporto.


Voltei de férias e estou a aterrar mais uma vez. Acho que o seguinte vídeo-poema ilustra o que senti nestes últimos anos em que vivi tanto e escrevi tão pouco. Eu também estava ali, a viver uma grande vida de aeroporto, exactamente em todas as línguas ditas no poema. Talvez já seja preciso sair do aeroporto. G.F. 








sexta-feira, julho 01, 2011



«Tenho em casa um saco cheio/ de histórias para te contar/ e só ando a fazer tempo/ para as poderes escutar»

domingo, abril 03, 2011

E se fosses sempre segunda-feira?









                                                                                               Banksy

Fu Min Chu

Fu Min Chu, era um artista marcial reformado que arrendava um T2 na Rua da Amargura. Partilhava com o seu canário estórias do arco da velha, relatos de um passado glamoroso a distribuir dupla patadas com sabor a Balanchine.  Sua vida era agora menos bela e sobretudo feita em função de cuidar de mazelas do foro cervical. Fu Min Chu, não tinha jeito para o negócio barato, aptidões especiais para confeccionar chopesóis nem tão pouco era provido de  dedos delicados para espetar agulhas esterilizadas em pontos nevrálgicos de corpos estranhos. Fu Min Chu era um artista marcial resignado em crise de terceira idade. Admirava filmes de Hong Kong, sobretudo grandes xaropadas dos anos 70. À noite, escrevia poemas de amor em língua portuguesa oriental cuja ternura era quase sempre omissa e cada palavra cheirava a sokutos. Para alguém a quem o dia-a-dia e a noite-a-noite, se tinham resumido a sexo, arte e luta, esta nova década era apenas mais do mesmo: alentos fora, nada. O seu último poema “Estúpidos Cupidos” falava-nos exactamente sobre isso.  Fu Min Chu era um artista marcial late-night-filósofo. Mágoa e ódio inspiravam-lhes as teses conspirativas, inundavam-lhe as palavras cruzadas, rebentavam-lhe as costuras dos sonetos amadores. Quis a vida que me cruzasse com Fu Min Chu em circunstâncias inusitadas num Mini Preço de bairro, enquanto Fu Min Chu roubava um frasco de compota. Fu Min Chu, trazia uma T-Shirt que dizia “A cauda abana o cão”. Fu Min Chu, o artista marcial a RSI que me confidenciou ser o maior insurrecto imigrante chinês da actualidade e na clandestinidade. Verdade ou mentira, até hoje ainda ninguém lhe dedicou um departamento. Ainda não percebo porquê. G.F.

Morte e Vida Severina

Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada nao se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada não se abre a boca

Chico Buarque sobre poema de João Cabral de Melo Neto

Febre

Paredes de cidades mal abandonadas diziam-te que tinhas de te perder. Esquinas riscadas que resolveste virar num final de noite de verão. Na pele, trazes 37 graus. Caminhas de vestido negro, novo corte de cabelo, saltos e suas. Gostas de suar mas sobre caminhos não tens a certeza. Encontras meia multidão e escassa luz âmbar. Escondes-te na música: na pele trazes 38 graus. Libertas outro botão. Há outras peles vestidas que passam por ti, estranhas, há agora 39 graus de desejo. Qualquer um poderia tornar-se o teu marginal, rasgar-te já as fronteiras, mas hoje danças e esperas. Existem olhos em ti, pensamentos que te tocam e te limpam o suor e desapertam outro botão, te levam para quartos desta cidade bem abandonada e te fodem repetidamente. Mas tu tens os olhos fechados, mudando-te no espaço, alma entregue a uma evasão. Corpo aguardando invasão. Há gentes a acender fogueiras noutras áreas da cidade. Essas gentes a arder tornam tudo mais quente. És ainda mais inferno. Satisfaz-te a insatisfação de não teres já o que queres. É cedo. És equador do mundo forasteiro que se cola em ti. Há céu, som, fúria. Há um apetite de entrega guardado para quando tiveres mesmo de abrir os olhos. Sentes outro corpo. Este diferente e a tua carne macia revolta-se porque sabe que quer ser tomada. A tua pele mente, finge não trazer agora 40 graus que te acariciam e te sufocam na mesma medida. Finge não querer água, cuspo, sobre ti, finge não querer uma língua que te percorra a sede. Finge que não quer continuação. Controlas: novo corte de cabelo, vestido negro, saltos, mas suas. Limpas o pescoço ao mesmo tempo que o outro corpo quase te diz “olá” e pergunta ao ouvido, “ porque estás aqui?”. Tu respondes, “não precisamos de perguntas hoje” e danças. Com um propósito, danças ainda só para o outro corpo, para contagiares o outro corpo de Inferno. E continuas até que te pedes mais espaço, outro espaço. G.F.

sábado, abril 02, 2011

Juliana

A  Juliana é uma menina de 9 anos que usa uma fita para o cabelo mais bonita de que todas as outras fitas para o cabelo de todas as miúdas que já conheci. A sua bochecha esquerda foi arranhada pelo Farturas, o ” seu gato maluquinho” e o seu olhar sereno insuspeito não denúncia as suas profundas inquietações existenciais infantis. A Juliana tem medo que o mundo termine amanhã e embora sorria e perceba que isso possa ser parvo, a verdade é que ela viu nas notícias os chineses radioactivos, as bombas por causa de um coronel Gandalfi e, desde há muito, a crise… a crise. A Juliana não sabe o que é a crise mas tem medo que a mãe amanhã não tenha dinheiro para comprar chocapic, que o pai tenha de ir para a tropa lutar contra os maus e tem sobretudo medo de já não acordar todos os dias a começar a partir de amanhã quando os pais a chamarem para tomar o pequeno almoço. O primo mais velho, o Tito, disse-lhe que o mundo acabava em 2012 e a Juliana agora sonha com diferentes fins de mundos todas as noites. Na última vez sonhou com um terramoto que partia as pessoas ao meio, em peças e as peças andavam todas desarrumadas e tristes. A Juliana não gosta, nem quer falar dos seus problemas, pensa que quanto mais falar deles mais eles podem acontecer e tenta esquecer em todos os minutos, os seus pensamentos “mais maus”.

Ontem falávamos sobre esses problemas e pedi-lhe que escrevesse numa folha de papel: “O Mundo vai acabar amanhã.” A Juliana, com a caligrafia mais bonita do que todas as outras miúdas que conheci, assim o fez, devagar e sem qualquer erro. Pedi-lhe que apagasse com uma borracha pequenina  verde que nos dizia “Jul” sumidamente e ela apagou uma a uma cada letrinha.  A Juliana não estava a perceber porque é que lhe tinha pedido para apagar e na verdade nem eu próprio sabia se aquilo iria resultar. Talvez a minha metáfora não fosse a dela e isso ainda viesse a confundir mais a Juliana. Contudo, expliquei-lhe que às vezes as pessoas têm muitos problemas e pensam que se os esquecerem livram-se deles e eles acabarão por desaparecer. A Juliana disse que sim que o seu problema é que o mundo não podia acabar mesmo amanhã, porque ela ainda queria ir ajudar a tratar de animais ou então ser professora de meninos com problemas,” mais ou menos como eu, mas ainda mais fixe”. Disse-me que todos os dias pensava nesse problema e que tentava apaga-lo como fez com a borracha mas dentro da cabeça. Eu pedi à Juliana que olhasse para o papel e me dissesse o que via. Ela logo respondeu “ainda dá para ler”: “Eu apaguei e ainda dá para ler, este problema  não fugiu!” Em algumas alturas da nossa vida ou do nosso dia longo de crianças, temos de parar para perceber que se tentamos apagar sempre alguns problemas sem os tentar resolver podemos estar a dar-lhe mais poderes. Os problemas ficam apagados só um pouquinho mas conseguimos quase sempre lê-los. Por isso talvez seja mais fixe, pegar nesse problema e tentar perceber se é mesmo um problema e se podemos resolvê-lo, trocar-lhe as tintas, dar-lhes a volta, atar-lhes os atacadores um ao outro para eles caírem. Às vezes a solução viaja num pequeno pormenor.

 Depois destas minhas palavras pedi  à Juliana que escrevesse novamente “O mundo vai acabar amanhã.” Perguntei-lhe se havia alguma coisa na frase que ela pudesse alterar e que pudesse ajudar a estar menos preocupada. Demorou um minuto, concentrada a olhar para os restos do que tinha escrito. Então, pegou no lápis pequenino e roído e, com muita calma e com um sorriso matreiro, desenhou por cima do ponto final um ponto de interrogação mais bonito do que todos os pontos de interrogação desenhados por todas as miúdas que já conheci. E a seguir escreveu: “Talvez, mas vai ser quando eu for muito velhinha”. G.F.

quinta-feira, março 17, 2011

brinca com o google

AVISO:

A informação que se segue é exclusiva a fulanos que tenham particular apreço pelo caos, por desmontar coisas, brincar com palavras, descarrilar mundos bem conhecidos do dia a dia. Aos não surrealistas, aos control freak, aos utilizadores permanentes do conforto e que acham que as brincadeiras são só para os putos: POR FAVOR NÃO SIGAM OS PRÓXIMOS PASSOS. Nós avisámos. Obrigado.

Alguma vez tiveste tanto tempo perdido que pensaste: «Humm vou ao google pesquisar qualquer coisa, por exemplo, que imagens aparecem quando escrevo "japoneses"?» Alguma vez tiveste ainda mais tempo livre, ou o teu curso de faculdade era esotérico que passaste tanto tempo a fazer pesquisas que davas por ti especado à porta do google, em branco a pensar: «tenho que fazer alguma coisa a esta página, vejo-a todos os dias, somos um mundo inteiro a vê-la todos os dias, vou transformá-la ou dar cabo dela»?

Pois bem bem míudo, senta-te direito e antes de clicares no link seguinte, fecha esta janela do firefox ou do explorer. Já fechaste? Não? Fizeste bem porque senão não perceberias o próximo passo. Então, depois de fechares esta janela, abre este blog através do google chrome ok?

Vá fecha lá a janela...

Pára de ler!

Sim, pára de ler e abre lá este blog no google chrome.

(passado 4 segundos)

Humm, presumo que estejas no google chrome. Se não estiveres não adianta mesmo continuares. 

Se estiveres, estás então preparado para a solução de todos os teus problemas de tédio e procrastinação sem sentido.

Lembra-te dos dias em que gostavas de poder controlar tudo e que o mundo não tivesse a gravidade que tem. Em que mandavas tudo às urtigas. Estás pront@? 


G.F.

the king´s artist and the tramp

"Once upon a time, there was a king who ruled a great and glorious nation. Favourite amongst his subjects was the court painter of whom he was very proud. Everybody agreed this wizzened old man pianted the greatest pictures in the whole kingdom and the king would spend hours each day gazing at them in wonder. However, one day a dirty and dishevelled stranger presented himself at the court claiming that in fact he was the greatest painter in the land. The indignant king decreed a competition would be held between the two artists, confident it would teach the vagabond an embarrassing lesson. Within a month they were both to produce a masterpiece that would out do the other. After thirty days of working feverishly day and night, both artists were ready. They placed their paintings, each hidden by a cloth, on easels in the great hall of the castle. As a large crowd gathered, the king ordered the cloth be pulled first from the court artist’s easel. Everyone gasped as before them was revealed a wonderful oil painting of a table set with a feast. At its centre was an ornate bowl full of exotic fruits glistening moistly in the dawn light. As the crowd gazed admiringly, a sparrow perched high up on the rafters of the hall swooped down and hungrily tried to snatch one of the grapes from the painted bowl only to hit the canvas and fall down dead with shock at the feet of the king. ’Aha!’ exclaimed the king. ’My artist has produced a painting so wonderful it has fooled nature herself, surely you must agree that he is the greatest painter who ever lived!’ But the vagabond said nothing and stared solemnly at his feet. ’Now, pull the blanket from your painting and let us see what you have for us,’ cried the king. But the tramp remained motionless and said nothing. Growing impatient, the king stepped forward and reached out to grab the blanket only to freeze in horror at the last moment. ’You see,’ said the tramp quietly, ’there is no blanket covering the painting. This is actually just a painting of a cloth covering a painting. And whereas your famous artist is content to fool nature, I’ve made the king of the whole country look like a clueless little twat." 
 
Banksy, Wall and Piece 
 
 
 

quarta-feira, março 16, 2011

Pedido de desculpas por este pesadelo. (por um antigo não sonhador)

E se um dia uns quantos "barbudos", "guedelhudos", "drogados", "extremistas", "utópicos "pacifistas", rastafaris ou por exemplo poetas embriagados, te dissessem nos anos 70 ou 80 ou 90: «daqui a alguns anos existirão crises financeiras e fome, desemprego de pessoas formadas, acidentes nucleares incontroláveis, praias a devolver cadáveres,plataformas petrolíferas com válvulas ao contrário e assassinas da fauna e flora, psicoses vividas em solidão, amores descartáveis, antropofagia nas relações humanas»? Chamar-lhe-ias sensatos ou visionários ou darias ouvidos e tentarias perceber do que falavam? Quase nenhum de nós não. Eu não, de certeza. Apelidaria, como talvez tu tenhas apelidado, qualquer um deles ou de "comuna" ou de "bêbado", ou de "freak", ou de "parvo" ou de "pseudo-nostradamus em LSD". E talvez continue, a grande maioria de nós a apelidar.

Mas a verdade é que agora é ridículo ou ignorante fazê-lo, porque está a acontecer exactamente aquilo que disseram há anos atrás esses loucos demagogos.

Infelizmente estavam certos e por isso peço-lhes desculpa e acho que tu também lhe devias pedir.

Sim puto: podes dizer que agora há muito mais mediatismo, mais câmaras, mais informação. Sim Prof: as ciências sociais e humanas têm mais instrumentos de análise ou as ciências exactas tem bases de dados ainda recentes; Sim mãe, a História é um ciclo que se repete e qualquer um é capaz de prever que o depois da bonança vem a tempestade. Sim pá, o mundo já foi pior do que está agora. E acredite eu ou não numa nova idade das trevas, a verdade é que acho que não fizemos nada para acabar com estes poucos anos de escuridão que estamos agora a viver.Porque acredito que era possível ter tentado travar estas trevas, tal como os "demasiado sonhadores" tentaram. E eu nem tenho a garganta aflita, as trevas nem são minhas pá...

Mas se pensares bem, estas não foram trevas absolutas para milhões de sudaneses genocidados? Trevas para milhares de nova-yorquinos soterrados e queimados, trevas para centenas de crianças em Beslan fuziladas, trevas para dezenas de madeirenses afogados em lama e vítimas de uma mau planeamento de território? Trevas para a tua avó, que está viva, mas que ninguém sabe que ainda existe?

Estudámos História para quê, não foi para evoluirmos? Não foi para anteciparmos tragédias? E por isso que peço perdão aos "utópicos". Peço desculpa a todos vocês, por fazer parte do outro grupo enorme de pessoas que não fez absolutamente nada para prevenir que outros (cada vez mais iguais a mim) sofram. Absolutamente nada, porque teria bastado fazer tão pouco.

Peço desculpas por todos nós que facilmente nos fomos esquecendo e nem sequer discutimos ou pensámos em soluções para as tragédias em grande escala ou pessoais que agora vivemos. Peço desculpa por nem sabermos sequer que existiam ditaduras assassinas, bolsas de mercados sem quaisquer valores ou fome no 7ºDto.

Peço desculpas por todos nós, obcecados pelo optimismo, pela produção ou pelo lucro emocional próprio a que chamamos felicidade. Nós, os (auto)centrados nos problemas dos outros para que os outros sejam escadotes dos nossos próprios desejos. Nós, que continuámos a crescer e a desdenhar esses homens e essas mulheres que nos alertaram para um pesadelo de um caminho futuro em relação a um mundo sem amor e menos verde. Nós que continuámos a acreditar numa gestão (dos outros) mais eficaz; na produção em massa, no plasma maior, na pila mais erecta, no orgasmo mais múltiplo, no triunfo do progresso de uma civilização em que quem ama tem de o provar através de uma pedra brilhante e quem odeia deve deitar-se num divã e drogar-se legalmente. Peço desculpas por todos nós, os sãos.

Nós, tal como a maioria, acreditámos no que apenas alguns quisessem que acreditássemos. E agora, sim percebemos que nos foderam anos e anos. Foderam-nos tão bem que até amámos o que eles amavam, entregámo-nos às suas dependências, às suas gripes, às suas taxas, aos seus prognósticos. Acordámos fodidos e sozinhos.

Sim miúda, não sei bem o que te diga, ou como resolver esta alhada globalizada. Mas o que te pergunto é: será que não temos uma oportunidade de dar o braço a torcer? Será que não podemos usar o que de melhor criámos na sociedade globalizada para pedir essas desculpas? Graças às redes sociais ainda incontroláveis, é possível denunciar, despertar, decidir o que politicamente está correcto, sonhar e ser maioria eficaz. Sem teorias conspirativas, zeitgueists, ideologias políticas obsoletas ou demagogias. Sem photohops ou falsas agências de comunicação. Sem rastas da moda, sem anarquias, sem estarmos bebados, sem repetirmos cliches urbano-tribais, sem lançarmos diablos ou sem gritarmos luta soando a "kirikirikirikiri". Sem fachos nem foices, sem punhos, nem setas, nem blocos, tudo gestos-objectos que nos arrastam para a lama do mesmo curral.

Libertámos Timor, tirámos a audiência à CNN, depusemos o Mubarak, fizemos a América e o mundo ter mestiça esperança, falimos as grandes editoras musicais e ainda ontem calámos quem achava que não seriamos muitos na ruas, sem organização mas também sem anarquismo. Fizemos, fiz isto, não nos tornámos sonhadores?

Quem é que neste momento tem mais poder que nós? Existe ou existiu mais alguma geração que possa sonhar em unir-se por um ideal e uma semana depois ele começar a ser cumprido em menos de 140 caracteres? Ainda vamos a tempo, todos juntos, de desfazer o que não fizemos para que este momento tão mau chegasse?

Peço desculpa a todos vocês, por este pesadelo. Tenho só um pedido a fazer-vos. podem-me adicionar ao vosso grupo?

Estou muito. Estou mesmo muito farto deste. Gonçalo Fontes

terça-feira, novembro 16, 2010

génios inúteis

Portugal é (segundo treze ou catorze pessoas que eu questionei à saída da Estação de Queluz-Belas depois de terem passado em simultâneo sem pagar os novos torniquetes para inválidos), o país do mundo que consegue mover mais gente em prol de ideias únicas, simples e completamente inúteis. Se usássemos esta força para algo realmente agente de mudança nas nossas vidas ou na de outros, não teria tanta piada, nem tantos aderentes, nem duraria mais que 5 minutos. Talvez devêssemos olhar para a produtividade lusa como um bolo rei que necessita de ter vinte quilómetros e o menor número possível de ovos indirectamente proporcional ao maior número imaginário de frutas cristalizadas. Talvez devêssemos tentar trazer para discussão pública o fim de leis obsoletas com mais de 30 anos com  mesma genica com que tentamos descer, ao pé coxinho (mais rapidamente-em andas-de costas-dançando funk-todos nús-juntando a maior multidão de bissexuais-folgazões-quarentões de bigode monárquico-trauteando a "Tocata e Fuga")-,os degraus do Bom Jesus. 

Talvez devêssemos discutir com o mesmo afinco a desigualdade social com que discutimos a desigualdade entre Dartacão e o Bocas.

Eu prefiro Bocas. G.F.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Adeus Senhor do Adeus

        Talvez seja a primeira vez que fique triste pela morte de um estranho público. Digo público porque aquele que nos acenava era de uma generosidade que, embora anónima, nos afastava do privado e nos fazia sorrir para ele e para a nossa cidade.
        Numa capital onde muitas vezes nos ultrapassamos sem ver caras e onde criamos ideias difusas de multidões associadas a esta ou aquela esquina costumeira, o Senhor do Adeus era alguém que nos trazia familiaridade. Porque não era louco e porque acenava dizendo adeus à sua e à nossa solidão, ele era-nos importante. Era-nos importante porque decidiu estar ali e fazê-lo, repetidamente, dia após dia, ano após ano.
          Há poucas pessoas que se tornam ícones anónimos de uma cidade: o senhor do adeus era, desde há muito tempo, uma estátua viva do Saldanha. Reconhecido de longe, reconhecido em toda a parte. Parei há uns anos, depois de uma ida ao cinema sozinho, junto do Senhor do Adeus, tratando-o como Senhor do Adeus. Falámos sobre cinema e sobre solidão, sobre artrites nas mãos e sobre despedidas. Mais que a conversa guardo a ternura com que muita gente parava o carro e, sem gozar, apenas acenava, apitava, lhe perguntava se precisava de alguma coisa. Gente que sobretudo conduzia sozinha. Ele interrompia a conversa que estava a ter comigo para simplesmente se despedir saudando-os. Como se nunca o tivesse feito na última década vezes sem conta. Espantava-me a sua capacidade de despertar sorrisos de forma tão simples. Às vezes até mesmo a altas horas de madrugada. Sorrisos de pessoas que invariavelmente também faziam parte de noites solitárias alfacinhas e que ali tinham a cumplicidade de um estranho mas tocante aceno.
                Algumas vezes imaginei-o porteiro simpático de quem ia para o reboliço do Marquês, para os hotéis da Liberdade ou para a boémia do Bairro Alto. Parecia que ao dizer-nos adeus nos bem-dizia: “Adeus, façam favor de continuar Lisboa”.
Talvez fosse isso o mais tocante e o que me faz entristecer hoje. É que tal como o fado do Marco Rodrigues que há 3 semanas tinha estado a ouvir, tal como nesse “homem do Saldanha” é cantado: o senhor do adeus não nos dizia adeus, dizia-nos olá. Os que o julgavam louco e troçavam nunca entenderão que este olá nos tocava. Talvez esses precisassem mais dele que nós.
                Vi o Senhor do Adeus a semana passada, à saída do Bairro, no Príncipe Real. Sorrimos por ele continuar ali como que teletransportado do Saldanha tal e qual personagem de um filme que vem só fazer a marcação indelével de um qualquer manifesto. De uma manifesto de coragem quase quixoteana ou simplesmente alguém real que gostava de existir em várias das nossas colinas e de fazer essa entrega à sua cidade, aos seus lisboetas. Disse-lhe da janela “boa noite”, ele sorriu-nos, nós acenámos.
                 Espanta-me que tenha dito mesmo Adeus o Senhor do Adeus. Estou triste porque ele era uma parte da nossa Lisboa que será contada aos mais novos em jeito de lenda urbana. Uma espécie de McDrive onde não era preciso pedir nada por um cumprimento em troca, numa cidade em crescente comprimento e tão afastada de cumprimentos. 
 Gostava que eles soubessem que o Senhor, antes do Adeus, existiu, viveu só e morreu sozinho. Foi humano e o que se escreverá sobre ele ultrapassará o seu singular içar da mão que era apenas o que bastava para prosseguirmos Lisboa.
                Amanhã o Saldanha não será o mesmo Saldanha e nós teremos ainda menos gente que nos diga Adeus como uma despedida deve apenas ser: perfumada com um sorriso e travestida de um ténue travo a "olá de novo".
                Adeus Senhor do Adeus.

quinta-feira, outubro 21, 2010

On rit encore

Bienvenue en mon cirque
Mon cabaret du ridicule
Ce soir, vous faites l’homme fort
Et moi, je joue les funambules

L’homme fort, sachez

Doit d’abord avoir l’air de faire
Un grand effort en silence
Il danse tout seul avec la mort

Nous sommes d’ici

Nous sommes gentils bien sur
Nous sommes plus forts plus forts que la nature nature
Nos avancions rayonnant
D’optimisme et d’amour
Qu’on a tout vu, tout vu
Et on rit encore encore

Et cependant je continue

Moi à risquer ce qui bouge dans mon ventre
Vous êtes si stoïque
Et moi si imprudente

C’est si burlesque

Si pittoresque
L’homme fort et la jeune funambule
Jouant à la cachette dans un hôtel qui brule

Nous sommes d’ici

Nous sommes gentils bien sur
Nous sommes plus forts plus forts que la nature nature
Nous avancions rayonnant
D’optimisme et d’amour
Qu’on a tout vu, tout vu
Et on rit encore encore

Lhasa et Arthur H.

terça-feira, outubro 12, 2010

Adiciona-nos.

Até amanhã se Deus quiser. Se Deus não quiser, que tenha bons argumentos para o seu capricho, porque nós estaremos prontinhos para os desmontar. Afinal pertencemos ao restrito grupo das pessoas que são bonitas, cultas e, acima de tudo, imortais. Adiciona-nos a todos. Somos os do intenso grupo dos que se começaram a ocupar antes do tempo com tal luta. Nunca morreremos até prova em contrário. Mas também não estamos propriamente a querer dizer que queiramos viver para sempre. É nessa ambivalente falsidade em que inventamos canções d’engano e em que nos embebedamos sem ligeirezas de poucas virtudes. Em que criamos por encomenda ao domicílio fados. Meus, nossos ou só teus,  se precisares de um que te dê jeito. Que nos dê jeito. Não tens propriamente algo a que chames domicílio? Tratamos disso. Afinal se nos adicionares somos ou não somos uma equipa?

 Até amanhã se Deus quiser. Se Deus não quiser, laçamos-lhe os sapatos, antes que a madrugada acabe. E olha que ele cairá dignamente como só os deuses sabem tombar. Escuta, vem daí. Estás há quanto tempo aí hospedado? Dias, meses, anos? Vomita a chave, destrepa os lençóis. Faz o check out do Hotel Miséria. Vem a galope, limpa as remelas, escova bem os dentinhos, porque é preciso sorrir muito e estar passivamente agradado com o mundo. Não serás famoso por muito mais tempo, um dia terás a tua quota de 15 minutos de anonimato. Mas não é isso que queremos para ti agora. Queremos-te a galope. Insatisfeito, ambicioso, «empreendedor». Com power pá. Muito power. Vem traz essa força e gasta-te. Amanhã só terá manhãs se Deus quiser não é? Então gasta-te. Usa-te. Abraça-nos. Somos amiguinhos: mais de nós em desgaste só alargará a nossa rede. Aumenta a rede, lança a rede, coze a rede e cose quem não quer ser da  nossa rede. Informa-te. Informa-te de tudo. Vê tudo. Lê tudo. Observa tudo. Experimenta tudo. Não tenhas vergonha. Não tenhas medos. Não te preocupes. Não te assustes. Nunca entristeças. Não pares se Deus quiser. Não pares. Não pares. Não pares jamais.
Cavalga connosco. Vive supersónicamente. Vamos em frente que ainda há muito em que nos gastarmos. Há carne e sonhos para todos. Há tesão e desejos para todas. Vamos ter tudo à grande, tudo à pequena era antigamente quando ainda não eras forte. Agora adiciona-nos. Nós temos a derradeira solução. Tudo é positivo, tudo são soluções. Tudo pode ser gerido. Tudo pode ser balizado. Tudo pode ser atingido sempre.Rompemos  problemas, rompemos cláusulas, rompemos tudo. Até minas, rompemos. Queres romper o quê hoje? 

Deus não há de crer, tranquiliza-te. Relaxa-te. Cultiva-te. Embeleza-te.Tonfica-te. Perfuma-te.Upgrada-te. O amanhã virá de certeza. O teu e o dos teus, por isso não pares. Avança para os teus cavalos novos. Avança para o teu castelo novo. Usa-te dos sinais de  fumo novos, novinhos em montra. Não abrandes, é sempre em frente, um horizonte é apenas sinal do próximo horizonte. Não te traves, experimenta tudo, não tenhas vergonha. Não te desconfortes. Não tenhas dúvidas. Não faças perguntas. Não critiques. Não tenhas medo. Não te preocupes. Não te assustes. Nunca entristeças. Não te embasbaques. Não pares. Só se nós quisermos, a equipa, claro.  Até amanhã se “nós” quisermos. 

Adiciona-nos. Quanto tempo continuarás a "gostar" de nós? G.F.