quarta-feira, março 16, 2011

Pedido de desculpas por este pesadelo. (por um antigo não sonhador)

E se um dia uns quantos "barbudos", "guedelhudos", "drogados", "extremistas", "utópicos "pacifistas", rastafaris ou por exemplo poetas embriagados, te dissessem nos anos 70 ou 80 ou 90: «daqui a alguns anos existirão crises financeiras e fome, desemprego de pessoas formadas, acidentes nucleares incontroláveis, praias a devolver cadáveres,plataformas petrolíferas com válvulas ao contrário e assassinas da fauna e flora, psicoses vividas em solidão, amores descartáveis, antropofagia nas relações humanas»? Chamar-lhe-ias sensatos ou visionários ou darias ouvidos e tentarias perceber do que falavam? Quase nenhum de nós não. Eu não, de certeza. Apelidaria, como talvez tu tenhas apelidado, qualquer um deles ou de "comuna" ou de "bêbado", ou de "freak", ou de "parvo" ou de "pseudo-nostradamus em LSD". E talvez continue, a grande maioria de nós a apelidar.

Mas a verdade é que agora é ridículo ou ignorante fazê-lo, porque está a acontecer exactamente aquilo que disseram há anos atrás esses loucos demagogos.

Infelizmente estavam certos e por isso peço-lhes desculpa e acho que tu também lhe devias pedir.

Sim puto: podes dizer que agora há muito mais mediatismo, mais câmaras, mais informação. Sim Prof: as ciências sociais e humanas têm mais instrumentos de análise ou as ciências exactas tem bases de dados ainda recentes; Sim mãe, a História é um ciclo que se repete e qualquer um é capaz de prever que o depois da bonança vem a tempestade. Sim pá, o mundo já foi pior do que está agora. E acredite eu ou não numa nova idade das trevas, a verdade é que acho que não fizemos nada para acabar com estes poucos anos de escuridão que estamos agora a viver.Porque acredito que era possível ter tentado travar estas trevas, tal como os "demasiado sonhadores" tentaram. E eu nem tenho a garganta aflita, as trevas nem são minhas pá...

Mas se pensares bem, estas não foram trevas absolutas para milhões de sudaneses genocidados? Trevas para milhares de nova-yorquinos soterrados e queimados, trevas para centenas de crianças em Beslan fuziladas, trevas para dezenas de madeirenses afogados em lama e vítimas de uma mau planeamento de território? Trevas para a tua avó, que está viva, mas que ninguém sabe que ainda existe?

Estudámos História para quê, não foi para evoluirmos? Não foi para anteciparmos tragédias? E por isso que peço perdão aos "utópicos". Peço desculpa a todos vocês, por fazer parte do outro grupo enorme de pessoas que não fez absolutamente nada para prevenir que outros (cada vez mais iguais a mim) sofram. Absolutamente nada, porque teria bastado fazer tão pouco.

Peço desculpas por todos nós que facilmente nos fomos esquecendo e nem sequer discutimos ou pensámos em soluções para as tragédias em grande escala ou pessoais que agora vivemos. Peço desculpa por nem sabermos sequer que existiam ditaduras assassinas, bolsas de mercados sem quaisquer valores ou fome no 7ºDto.

Peço desculpas por todos nós, obcecados pelo optimismo, pela produção ou pelo lucro emocional próprio a que chamamos felicidade. Nós, os (auto)centrados nos problemas dos outros para que os outros sejam escadotes dos nossos próprios desejos. Nós, que continuámos a crescer e a desdenhar esses homens e essas mulheres que nos alertaram para um pesadelo de um caminho futuro em relação a um mundo sem amor e menos verde. Nós que continuámos a acreditar numa gestão (dos outros) mais eficaz; na produção em massa, no plasma maior, na pila mais erecta, no orgasmo mais múltiplo, no triunfo do progresso de uma civilização em que quem ama tem de o provar através de uma pedra brilhante e quem odeia deve deitar-se num divã e drogar-se legalmente. Peço desculpas por todos nós, os sãos.

Nós, tal como a maioria, acreditámos no que apenas alguns quisessem que acreditássemos. E agora, sim percebemos que nos foderam anos e anos. Foderam-nos tão bem que até amámos o que eles amavam, entregámo-nos às suas dependências, às suas gripes, às suas taxas, aos seus prognósticos. Acordámos fodidos e sozinhos.

Sim miúda, não sei bem o que te diga, ou como resolver esta alhada globalizada. Mas o que te pergunto é: será que não temos uma oportunidade de dar o braço a torcer? Será que não podemos usar o que de melhor criámos na sociedade globalizada para pedir essas desculpas? Graças às redes sociais ainda incontroláveis, é possível denunciar, despertar, decidir o que politicamente está correcto, sonhar e ser maioria eficaz. Sem teorias conspirativas, zeitgueists, ideologias políticas obsoletas ou demagogias. Sem photohops ou falsas agências de comunicação. Sem rastas da moda, sem anarquias, sem estarmos bebados, sem repetirmos cliches urbano-tribais, sem lançarmos diablos ou sem gritarmos luta soando a "kirikirikirikiri". Sem fachos nem foices, sem punhos, nem setas, nem blocos, tudo gestos-objectos que nos arrastam para a lama do mesmo curral.

Libertámos Timor, tirámos a audiência à CNN, depusemos o Mubarak, fizemos a América e o mundo ter mestiça esperança, falimos as grandes editoras musicais e ainda ontem calámos quem achava que não seriamos muitos na ruas, sem organização mas também sem anarquismo. Fizemos, fiz isto, não nos tornámos sonhadores?

Quem é que neste momento tem mais poder que nós? Existe ou existiu mais alguma geração que possa sonhar em unir-se por um ideal e uma semana depois ele começar a ser cumprido em menos de 140 caracteres? Ainda vamos a tempo, todos juntos, de desfazer o que não fizemos para que este momento tão mau chegasse?

Peço desculpa a todos vocês, por este pesadelo. Tenho só um pedido a fazer-vos. podem-me adicionar ao vosso grupo?

Estou muito. Estou mesmo muito farto deste. Gonçalo Fontes

2 comentários:

andreia disse...

vivemos num país de vítimas. ouvimos as pessoas a queixarem-se, a falarem do seu descontentamento, dizem que sentem-se impotentes.
o mais assustador é ver que essas mesmas pessoas quando têm poder de mudança, quando podem fazer algo de diferente dizem sempre o mesmo "não vale a pena, as coisas nunca mudam".
o controlo constante de si mesmo, mas nunca o poder sobre si para mudar, para avançar para o desconhecido, para dizer um simples "basta".
é assim em muitas pessoas, em cada um de nós.
Obrigada por as tuas palavras Gonçalo.
Somos avisados, alertados ao longo dos tempos. Vamos continuar a ser, enquanto não fizer sentido, enquanto não houver identificação...a inconsciência e a alienação é uma força enorme.
acredito na mudança para algo melhor.
acredito na mudança.

Anónimo disse...

http://www.ionline.pt/conteudo/113267-islandia-o-povo-e-quem-mais-ordena-e-ja-tirou-o-pais-da-recessao