sábado, janeiro 24, 2009

rasteira


Ontem rasteirei-te à saída do colégio. Tinhas o cabelo menos curto e eu tinha as tardes mais longas para poder jogar aos apurados na clareira que diziam lembrar o Barnabéu. Eu aperfeiçoava técnicas para te conseguir estatelada no chão e tu apuravas milhares de predicados e complementos indirectos com as tuas Polly Pockets. Não sabia o que eram recibos verdes, quanto custava o barril de petróleo ou que o meu pai podia um dia tornar-se velho. Nas noites de viagens na penumbra, não havia bairros, nem álcool, nem dilemas. O caminho para eu poder estar confortavelmente satisfeito era traçado a saquetas de cromos dos Caça-Fantasmas e ao facto de esperar que, no dia em que fosse novamente chefe de turma, entregar o teu dossier depois dos outros todos e deixar-te lá dentro um tosco desenho feito a a canetas de filtro Molin. Então viajava contigo por todos os países que o Eládio no canal 2 me falava e tornava-me no herói mais forte, mais bonito e mais adorado do Planeta e tu mais fantástica que todas as raparigas da nossa idade. Até quase da Ariel, a Pequena Sereia. Depois eu adormecia e, na manhã seguinte o meu despertador ainda era a minha mãe. Eu gostava de ti mas gostava muito mais dos apurados e do Brinca Brincando. Por isso, tanto me fazia que já não fosse a única pessoa a quem pedias o 5 no bate pé. Só que naquele dia tu estavas tão bonita que tinha mesmo de te rasteirar à saída do colégio. Não te aleijaste, o que prova a ineficácia das minhas rasteiras. Sorriste, chamaste-me parvo e perguntaste se eu queria uma pastilha gorila de banana ou morango. Eu escolhi morango e ficámos a tarde toda a rebentar balões peganhosos na cara um do outro. Mereceste e bem a rasteira que te fiz ontem à saída do colégio. G.F.

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