segunda-feira, março 01, 2004

Um dia fraco

Há dias fracos. Há outros fortes. Estes têm sido os primeiros. De complacência e sem notáveis «empreendimentos». Sem fios condutores e metas ainda por esboçar. São dias sem palavras e também sem silêncios. São dias tristes aqueles que esperamos que passem. Nem dias são. São resquícios de tardes e noites polvilhadas de parêntesis e de reticências. Sensação de que se poderia ter feito bem melhor. Ou melhor, que se poderia ter feito alguma coisa. Não acredito que seja o único a viver dias assim. Essa singularidade não existe, faço parte dessa tribo diletante, que ainda estuda e vive do fundo monetário parental. Resolve os problemas na pressão da véspera, acredita em milagres académicos, dá a volta ao sistema, apodera-se dos seus fracos. Tribo que vai passando, remediando os anos, sem os perder mas talvez sempre meio perdida. E recomeçam os semestres, as mesmas revivências sempre acompanhadas da vontade de partir, livre, pelas estradas, afinando azimutes pela simples descoberta sem deveres. Mas à procura de estradas serpenteadas. Toda a gente que viaja, especialmente a que caminha a pé, reconhece a monotonia de uma recta. A maravilha e a surpresa nascem depois de uma curva desconhecida ou da decisão numa encruzilhada. E vai-se caminhando, ao frio como hoje o tenho, ao vento como agora sopra, à fome de um lanche que se vai adiando, à procura de um vulcão adormecido, quiçá na próxima curva. G.F.


Romance de um dia de estrada

Andava há já vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
a voltar-se d'impaciente
me fez parar de repente
era noite e o casarão
não tinhas lados nem frente
dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-m'a porta
fiz as luzes se apagarem
cheguei-me mais à janela
vi acender-se uma vela
passos de mulher andarem
e uma mulher muito bela
chegou-se mais à janela
chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
nem ódio nem espingardas
trago paz numa viola
quase que não fui à escola
mas aprendi nas estradas
o amor que te consola
Trago paz numa viola
Trago paz numa viola

Meu marido foi pra longe
tomar conta das herdades
ela disse "Companheiro"
eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
afundados num colchão
entre arcas e um reposteiro
descobrimos um vulcão
era o mês de Fevereiro
e o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
e só conhecia atalhos
e ela a mostrar-me caminhos
entre chaminés e orvalhos
pela manhã, sem agasalhos
voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

Letra e música: Sérgio Godinho
In: "Sobreviventes"; 1971

Sem comentários: